• Nara Guichon

A influência da cor em meu trabalho

Cor e memória: impossível desconecta-las. Ponto de partida para tantas coisas, cores e texturas são para mim o fio mestre que guiou toda a minha trajetória. Em meu trabalho transparece a influência decisiva das cores e texturas do mundo de minha infância.


Cada elemento em minhas criações torna-se a materialização dos sentimentos que trago comigo desde a tenra idade.


Na arte ou no artesanato a cor é bem mais do que reações químicas, compostos e tinturas. A cor, assim como as palavras, são parte de uma linguagem única, que fala diretamente às pessoas e preserva os meandros do saber manual.


Para o artista, artesão ou designer a cor é veículo de expressão. De acordo com o trabalho ela pode significar coisas completamente diferentes. As redes de pesca, que se tornaram parte fundamental do meu trabalho, sempre apresentam tons pastéis, coloração advinda de um lento desbotamento do azul original das redes novas. Desta forma, as intempéries criam com maestria, ao longo das décadas, novos tons.



Recordo-me que, já aos seis anos, tinha total segurança de estar me expressando em completa harmonia com as cores que iam repousando nas brancas folhas de meus cadernos de desenho. Cores quentes ou frias, neutras ou potentes, meu olhar infantil já sabia diferenciar o melhor tom para expressar-me com clareza.


As cores da minha infância eram vida e luz; com o carmim das maçãs dependuradas em ramos e troncos de inúmeros matizes de marrons sobre os pastos luminosos. As aulas de artes eram para mim o momento onde o tempo parecia parar.



Detalhes da técnica de Ecoprint. Foto: Divulgação / Nara Guichon.

Aprendi logo cedo a observar e esse ato serviu-me não apenas para desenvolver um bom senso estético, mas para selecionar no mundo natural a minha volta quais elementos poderiam ser parte do meu trabalho. Desta forma, me interessei pelo Eco Print, técnica desenvolvida pela australiana Índia Flint. Após desenvolver melhor os meus conhecimentos, fui agregando experiências advindas da prática diária e me permitindo resultados surpreendentes.


O fazer manual executado com respeito à natureza depende da sensibilidade. Não pode existir se não houver uma profunda humildade perante a grandeza do mundo natural. É preciso pedir licença. As cores ofertadas pela natureza e capturadas de modo consciente não são como as cores falsamente perfeitas que a indústria química nos vende. Únicas, essas cores possuem em cada tom um universo próprio de sutilezas e originalidade.

O amarelo das flores desta estação não será jamais igual ao amarelo de outros anos. O resultado dependerá por sua vez também da fibra na qual repousará. O azul mineral obtido de rochas e terra não será jamais do mesmo tom a cada nova criação. O lilás, o verde, o vermelho – cada cor obtida de insumos naturais não é apenas mais viva, mas também incomparáveis.


Eis a graça do criar e do fazer com as mãos: a perfeição reside na própria imperfeição. Nenhuma peça é igual a outra, nenhuma cor se repete. Assim como a natureza é diversa, as peças artesanais são também singulares, donas de uma história, veículo de uma linguagem única.

Voltando aos meus tempos de infância, recordo-me que depois dos desenhos vieram as roupas que eu deveria combinar de acordo com minhas exigências. Bordôs em tons manteiga, azul calipso com carmim – tudo tão natural e espontâneo que ainda hoje me pergunto: como podia uma criança tão pequena “pintar e bordar” e se vestir conforme suas vontades? De onde veio esse chamado das cores? Não sei, mas sou grata de tê-lo recebido.



Ainda menina sempre me vi sendo questionada sobre quais tecidos eu gostaria de usar para fazer minhas roupas. Com alegria acompanhava minha mãe e minha avó no dia da compra dos tecidos. Cores e texturas, cortes e linhas, botões e presilhas. Para mim a felicidade estava ali, na mão precisa de minha avó que moldava e costurava os vestidos de verão, os pijamas de inverno. A mágica transformação do tecido reto em curvas suaves e graciosas.


Hoje acredito que essa liberdade criativa foi a mola propulsora para expressar um dom que sempre esteve comigo.


O respeito ao fazer manual, a atenção e a humildade foram as chaves que abriram as portas e me transportaram ao mágico universo das cores. Fazem parte desta jornada também cada pessoa que, ao longo dos anos, adquiriu ou recebeu uma peça criada em meu ateliê, levando consigo essa mensagem e magia.


E que assim seja: que as cores digam o que o coração exprime.

 

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