• Nara Guichon

Crise hídrica – estamos ficando sem água e como mudar isso

Atualizado: 26 de out. de 2021



A água está presente em tudo que comemos, nas roupas que vestimos e em todos os produtos que compramos. A vida moderna segue seu rumo por causa da água.


Muitas pessoas não sabem, mas gastamos mais água do que deveríamos. Em um simples banho de 5 minutos são consumidos em média 160 litros de água. Escovar os dentes? Mais 6 litros. Descarga num vazo sanitário? 12 litros. Todos os dias, literalmente, vemos a água se esvair, sem pensamos em como poderíamos, da fato, reduzir essa triste realidade.


Nosso planeta é coberto por aproximadamente 70% de água. De todo esse volume, apenas 2,5% é água doce. A quantidade é ainda menor quando analisamos os reservatórios naturais de água potável. Dos 2,5% totais, cerca de 2% trata-se de água em estado sólido, confinada nas geleiras do Polo Norte e Antártida. Os outros 0,5% estão espalhados na atmosfera, nos aquíferos subterrâneos, pântanos, lagos e por último em rios.


Ou seja, todas as necessidades humanas devem ser supridas com menos de 0,5% de toda a água da Terra. O mal-uso dos recursos hídricos, a produção descontrolada da indústria agropecuária, os abusos da indústria têxtil, a má gestão do consumo doméstico – tudo isso tem colaborado para que o planeta enfrente a primeira grande crise hídrica da história da humanidade.


Pela primeira vez, desde que o homem assumiu o posto de animal dominante na Terra, presenciamos o colapso de um elemento natural abundante, tudo isso causado diretamente pela intervenção humana.

Crise hídrica na África. Fonte: Conserve Energy Future

Por que estamos ficando sem água?


A natureza possui leis muito sólidas. Toda a água que existe na Terra, permanece na Terra. Não há como essa água escapar para o espaço. O que acontece é uma mudança no ciclo natural das águas. Com o uso indiscriminado da água doce, os reservatórios naturais não têm tempo para serem refeitos. Estamos gastando muito mais água potável do que a natureza é capaz de nos fornecer.


Podemos dizer que a escassez de água é uma combinação de má gestão política global e irresponsabilidade do sistema capitalista. Este ciclo considera a água como um recurso infinitamente disponível, quando na realidade, a água para consumo humano e para a vida na Terra é algo delicado e raro.


Segundo dados da ONU, atualmente 1,2 bilhão de pessoas não possuem acesso a água potável. Ao todo 1,8 bilhão de pessoas, ou 42% da população do planeta, não contam com saneamento básico. Aproximadamente 10 milhões de pessoas morrem anualmente por conta da seca, fome ou doenças provocadas pelo consumo de água contaminada.

De acordo com dados das ONU, o consumo de água triplicou nos últimos 50 anos devido ao crescimento demográfico. Até 2025 teremos um aumento de 50% na demanda do recurso nos países em desenvolvimento e 18% em países desenvolvidos. Ainda de acordo com um estudo realizado pela World Resources Institute (WRI), o ano de 2040 será o pior da história quando o assunto é consumo de água. Até este ano teremos cerca de 3,5 bilhões de pessoas no mundo sofrendo severos problemas de saúde e sociais pela falta de acesso a água potável.

Reservatórios vazios na cidade de São Paulo. Fonte: El País.

A crise hídrica no Brasil


Apenas 10 países: Brasil, Rússia, China, Canadá, Indonésia, USA, Índia, Indonésia, Venezuela e Colômbia concentram 60% de toda a água doce disponível na Terra, enquanto na África e no Oriente Médio existe uma grande deficiência de fornecimento hídrico.


O Brasil faz parte do grupo dos países mais ricos em água doce do mundo. Temos dois dos maiores rios em volume de água do globo, o Amazonas e o Paraná. Só o rio Amazonas possui mais de 200 afluentes e a bacia amazônica representa um quinto de toda a água fluvial existente na Terra e 20% de toda a água doce líquida do planeta. Ou seja, a crise da água no Brasil é política e fruto da má gestão, e não da falta dos recursos hídricos.


Desde 2014 o Brasil sofre a maior crise de recursos hídricos de sua história. Cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Brasília vivem rotineiramente verdadeiros apagões com torneiras vazias e grande transtorno para seus moradores. A realidade aponta que as populações viverão o drama da falta de água com mais frequência nos próximos anos.

O fato é que o Brasil possui peculiar fartura da água e não temos, deste modo, consciência de quão precioso e raro ele é.


Vale citar que com o estímulo ao consumismo desenfreado, cada vez mais pessoas estão comprando mais equipamentos que demandam maior uso de água, como lava-louças, lavadoras de roupas, limpadores de pressão etc. Existe ainda muito desperdício sistêmico. Quem nunca viu um vizinho lavando a calçada com uma mangueira? Embora exista um movimento para que o desperdício seja evitado, muitas pessoas ainda não possuem a correta consciência ambiental e usam a água sem nenhum critério de economia. No caso do Brasil ainda podemos destacar:


Mudanças no ciclo natural das chuvas.

O aquecimento global, outro problema ambiental urgente, tem desregulado o calendário de chuvas no Brasil. As mudanças na temperatura do oceano têm causado alterações nas massas de ar frio, que atingem com cada vez mais força o Sul do Brasil e afastam a chuva das regiões Sudeste e Nordeste. O resultado são períodos de seca extrema (o Nordeste enfrenta sua pior seca em mais de 100 anos) e chuvas intensas, que causam enchentes e destruição.


Mal planejamento urbano.

A maioria dos grandes centros urbanos fica nas margens de rios, lagos ou na beira do mar. No Brasil não é diferente. O problema é que a política pública nacional nunca valorizou a água como um recurso valioso. Cidades cresceram, dobraram de tamanho, mas seus reservatórios continuaram os mesmos. Em outros casos a perfuração de poços para obtenção das águas subterrâneas termina no esgotamento destes mananciais e dos aquíferos.


Poluição.

Há muitas formas pelas quais os reservatórios de água doce e potável no Brasil estão sendo degradados. Os lixões e aterros sanitários sem o devido gerenciamento são um exemplo. O acúmulo de lixo sem tratamento resulta na contaminação dos lençóis freáticos. Outra forma de agressão ambiental que resulta em escassez de água é o despejo de esgoto, residencial e industrial em rios, córregos e mangues.




A água “invisível”


A maioria das pessoas desconhece que gasta-se, aproximadamente, 200 litros de água para fazer cada cafezinho que degustamos. Essa é a quantidade de água usada no cultivo do café em sua origem. Para um quilo de bife para um jantar em família são gastos cerca de 15 mil litros de água desde a criação do gado até a manufatura da carne. Apenas uma família gasta cerca de 35 mil litros de água por dia em produtos que dependem deste elemento para serem produzidos.

Estamos falando num rastro invisível que não é perceptível para a maioria dos consumidores. O conceito de “water footprint”, ou rastro do consumo da água, foi introduzido em 2003 pelo professor em Recursos Hídricos da Universidade de Twente, na Holanda, Arjen Hoekstra.


Este conceito visa medir o gasto real de água usada para que um produto seja criado, desde o seu cultivo, manufatura, processamento, transporte e entrega. Mesmo um hambúrguer de vegetariano demandará 160 litros de água no cultivo da soja. Um número alto, mas nada comparado ao gasto com a carne tradicional, que gasta nada menos que mil litros de água só no transporte. Um sanduíche, com duas fatias de pão, gasta 100 litros de água. O queijo demanda 65 litros de água para apenas duas fatias.

Pegada Hídrica de diversos produtos. Fonte: Sabesp.

Como podemos mudar essa realidade


Betsy Otto, diretora dos estudos hídricos no World Resources Institute, alerta para o fato que a água, apesar de ser essencial para a vida, é considerada um artigo muito barato. Em alguns países ela é taxada para a população, mas dada de graça para a indústria do agronegócio.


Isso explica como o mercado de consumo consegue oferecer camisas de algodão e hambúrgueres por preços tão baixos. Se toda a água envolvida neste processo fosse cobrada pelo seu real valor, não existiria fast fashion, fast food ou qualquer outro modelo de consumo rápido, de baixa qualidade e com tamanho dano ambiental.

Consumo de água por país. Fonte: Sua Pesquisa.

No centro da crise de recursos teremos sempre o fato de que algo tão fundamental como a água ainda é tratado como um assunto de pouca importância. Cabe a nós, cidadãos do mundo, ajudar a gerir e consumir este recurso da melhor maneira possível. Algumas pequenas ações podem fazer a diferença:


Economize: de acordo com a ONU, um norte-americano consome 540 litros de água por dia. No Brasil, a média é de 159 litros na região Sudeste e de 117 litros no Nordeste. No Haiti a média é de apenas 15 litros por dia por pessoa. Isso dá uma dimensão de como usamos nossos recursos de maneira injusta e desmedida. Não use água limpa para lavar calçadas, carros ou áreas externas. Prefira reaproveitar água da máquina de lavar ou invista em sistemas de coleta de água pluvial. Evite banhos demorados e fique atento na hora de lavar as louças. Sempre é de bom tom perguntar-se: será que eu posso fechar um pouquinho mais a torneira?


Escolha o vegeterianismo ou veganismo: não consumir artigos de origem animal é uma das formas mais diretas de impactar positivamente sobre o consumo de água no planeta. A indústria alimentícia é a maior responsável pela poluição e consumo de água potável no planeta.


Consuma vegetais locais e orgânicos: ao consumir a produção local de frutas, verduras e legumes você estará ajudando a parar um ciclo danoso ao nosso ecossistema. Os artigos de hortifrúti cultivados por famílias regionais, consumem muito menos água e ainda fomentam a economia familiar. Isso sem contar que não demandam agrotóxicos nem fertilizantes químicos em sua produção.


Mude seus hábitos de consumo: roupas, sapatos, bolsas, peças de decoração e móveis dependem de água para ser feitos. O algodão, visto como uma fibra inofensiva, é responsável pelo consumo de bilhões de litros diários de água potável (já falamos sobre isso aqui). Prefira sempre peças de vestuário, acessórios e afins criados por artesãos e artistas locais. A reciclagem, o reuso e a produção em pequena escala garantem mais qualidade, durabilidade, beleza e menor uso da água.


Dicas para assistir


Recomendo ainda os seguintes vídeos e documentários sobre o tema:



 

23 visualizações0 comentário

Posts Relacionados

Ver tudo