• Nara Guichon

O que é o Ecoprint e quais suas principais vantagens?




Mais pessoas estão buscando conhecer sobre tingimentos naturais, artesanato sustentável, química verde e demais práticas limpas para a criação de produtos gráficos, de moda ou design.


A ligação da moda e do design com o pensamento sustentável não é casual. Ao longo de sua história a humanidade aprendeu a sintetizar os elementos naturais de seu entorno para a confecção de artefatos para o seu bem-estar e sobrevivência. Dos caprinos vieram as lãs, das plantas vieram o linho, o algodão, o cânhamo. O mesmo aconteceu com as cores. Os primeiros tingimentos e métodos de padronagem foram, durante séculos, totalmente naturais.


Diante de um planeta cada vez mais poluído e de mudanças radicais em nossa relação com o meio ambiente, o Ecoprint surge como alternativa limpa, ética e absolutamente original para a criação de tecidos, vestes, estamparia de encadernação, objetos de decoração e design.


Antes de nos aventurarmos pelo mundo da impressão botânica, vamos responder a seguinte questão: o que é Ecoprint? Seria possível afirmar qual sua origem? Qual a diferença do Ecoprint para as demais técnicas?


Afinal, o que é Ecoprint?


Segundo a artesã e pesquisadora Sharlene Bohr, Ecoprint, ou Ecoimpressão, pode ser definido da seguinte forma:

“Ecoimpressão é uma técnica em que plantas, folhas e flores deixam suas formas, cores e marcas no tecido. O material vegetal empacotado dentro do tecido é cozido no vapor ou fervido para liberar a tinta encontrada naturalmente dentro da planta, criando uma impressão de contato no formato da folha ou flor usada. Essas impressões de contato são chamadas de “impressões ecológicas”.

ideia de tingimentos naturais não é nova e se confunde com a história da humanidade. O fragmento de tecido pigmentado por mãos humanas mais antigo tem pelo menos 6200 anos e foi encontrado numa tumba no Peru.


Até boa parte do século XIX os pigmentos utilizados pela indústria têxtil eram todos de origem natural. Com a criação dos padrões industriais e os compostos químicos artificiais, iniciou-se uma nova era e um novo conceito de estamparia e vestimenta.

Esse é o pedaço de tecido tingido mais antigo conhecido, criado há mais de 6 mil anos. Fonte: Livescience.

Os elementos naturais e imperfeitos foram substituídos por formas simétricas e repetitivas. O pequeno artesão e produtor local perdeu o seu espaço para as grandes companhias e parte desse saber milenar foi soterrado.


É nesse contexto que o Ecoprint, ou em terminação inglesa “Ecoprinting”, apresenta-se como um retorno ao natural e manual.


Qual a origem do Ecoprint?


Não é possível afirmar exatamente qual a origem da impressão botânica, mas suas raízes culturais são muito antigas. Há versões dessa técnica em diferentes povos, estilos e culturas.


No Japão, o complexo de técnicas de tingimento conhecido como shibori, é uma conhecida versão da prática de impressão e tingimento manual. O corante mais utilizado é o índigo, um composto extraído tradicionalmente da planta Indigofera suffruticosa, o tradicional anil, de cor azul intensa.

Shibori: técnica japonesa que usa tecidos naturais e tingimento com anil. Fonte: mymodernmet.com.

Na Índia e em partes da Ásia Menor, o bandhani usa amarrações, ervas e uma série de nós e pontos nos tecidos para criar novas cores e padrões. Os pigmentos são, em sua forma tradicional, extraídos de plantas locais, minerais ou da mistura de diversos elementos como sementes, óleos naturais e seivas.

Bandhani: técnica indiana que combina costura, desenho e tingimento natural e manual. Fonte: static.unnatisilks.com.

Encontramos versões dessa prática também no Peru, Bolívia, Marrocos e em diversos povos nômades do Norte da África.


Algumas regras da filosofia do Ecoprint


Podemos dizer que em cada lugar do mundo o Ecoprint é realizado de uma forma. Encontramos pequenas variações no uso das técnicas, na escolha dos elementos naturais (afinal, cada região possui seu ecossistema botânico) e na forma de finalizar as peças criadas. Mas o Ecoprint, como bem sabemos, não é apenas uma técnica cartesiana, mas uma filosofia de vida que se orienta através de alguns preceitos únicos:


Nada de componentes artificiais

O Ecoprint é algo tão especial justamente por sua relação de respeito com o todo. Essa é uma regra de ouro: descubra suas cores apenas usando elementos naturais que não poluam o nosso planeta de forma alguma. Corantes tóxicos industriais, aceleradores de processos de fixação, realçadores e qualquer composto artificial ou residual jamais devem ser considerados.


Tudo no seu tempo

O tingimento natural é um processo lento, que exige paciência e concentração. Mas é justamente esse fazer mais atento e dedicado que nos brinda com peças incrivelmente únicas. Todo(a) “Ecoprinteiro(a)” deve aprender a desacelerar, aguçar os sentidos, resignificar o toque, o olfato, a visão. É preciso olhar ao seu redor e interpretar o que a natureza nos diz. É verão ou inverno? Os galhos estão cheios de flores coloridas ou os tons caminham para as cores terrosas? A pressa definitivamente é inimiga do Ecoprint.



Deslumbramento: nenhuma peça em Ecoprint é igual a outra. Foto: acervo pessoal.

A imperfeição é uma forma de unicidade

Nenhuma impressão em Ecoprint é igual a outra, porque nenhuma folha é igual a outra, nenhuma flor, nenhuma pétala, nenhuma semente. Nem mesmo os dois lados de uma folha são iguais. Isso nos lembra da importância dos detalhes e de aceitar o acaso e o inusitado.


O Ecoprint é diferente de tingimento simples

A impressão ecológica atua no tecido como um complemento de cor e forma, e apenas não como um simples corante. O Ecoprint, na maioria das vezes, mantém a “cor de fundo” de um tecido. Por exemplo: a tonalidade natural do linho, que varia do branco até o bege morno, quase sempre é mantida. O que vale aqui é a ornamentação do tecido com uma nova camada de cor, formas de flores, plantas, sementes, sem necessariamente ser obrigatória a encarnação total da peça.


O Ecoprint é sobre conexão

Durante a criação de uma peça em impressão botânica, realizamos diferentes tipos de conexões. Entre nós mesmos e o entorno, entre nossas ideias e os elementos naturais que coletamos, mas principalmente entre pessoas que acreditam num mundo mais limpo e melhor.





O começo de uma ideia maior

Para muitas pessoas o Ecoprint é uma forma de expressão e até de meditação. Mas ele também pode ser o ponto de partida para a criação de um negócio muito justo, ético e sustentável. Você poderá criar desde peças de vestimenta até objetos de design como forros para luminárias, quadros, ou material para caixas decorativas, cadernos. Ou seja, há um universo de possibilidades dentro de cada amarração.


O Ecoprint exige um conhecimento mais aprofundado

Não basta apenas conhecer qual flor possui melhores pigmentos, ou quais raízes oferecem cores mais vibrantes. O Ecoprint acontece na fusão de vários elementos, num jogo químico entre o tecido, o colorante e o mordente. O mordente é o composto responsável pela fixação da cor na peça. Eles podem conferir propriedades de solidez ou suavidade e ampliar a gama de cores de uma peça.


Resumindo

A impressão botânica é sinônimo de uma vivência e ponto de partida para uma mudança na forma como consumimos e nos relacionamos com o mundo.


O Ecoprint é um retorno ao contato com o natural, com a responsabilidade social e com uma relação mais humana.


Você poderá aprender os segredos dessa incrível técnica de impressão em tecido com o curso online Ecoprint: Poesia em Tecido, desenvolvido por min, Nara Guichon.

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