• Nara Guichon

Porquê planto árvores

Atualizado: 15 de out. de 2021




Ao longo da vida percebi que tudo o que vivenciei, aprendi e recebi na infância foram sementes, pequenos grãos que germinaram durante todo o meu viver.


Tal qual mudas que crescem e se fortalecem quando cuidadas com zelo, cada uma dessas sementes foi consolidada pelo querer e pela prática. Assim foi com tricô, a tecelagem, o fiar, o desenhar, cozinhar, fazer pães e por aí vai… cada ação que desenvolvo hoje surgiu para mim como a promessa das plantas, que guardam no grão os caminhos do futuro.


Há tempos venho me perguntando de onde nasceu o meu amor pelas árvores. Não me recordo de ter tido um mestre que fizesse despertar em mim essa paixão, ou qualquer um que me chamasse a atenção sobre esses majestosos seres. Acredito que o meu encontro com as árvores se deu de modo instintivo, como duas pessoas que se encontram e se sentem, desde então, amigas de longa data.


Recordo-me que as árvores estavam presentes nos desenhos que criava nas aulas de artes da escola primária. Minha infância foi entre quintais cheios de verde onde ao longo do ano, colhíamos abacates, laranjas e caquis. Era evidente o meu encantamento por tão diversas cores, texturas tão exuberantes, sabores e cheiros tão peculiares. Nasceu ali um profundo respeito e admiração pela capacidade da natureza em generosamente criar e distribuir abundância.


Morávamos bem próximo ao Jardim Botânico de Porto Alegre, local onde desfrutávamos das tardes de sábado entre as sombras das alamedas. Lembro-me do salgueiro-chorão debruçando-se nas águas do lago, assim como uma infinidade de plantas que coloriam a paisagem, sem se importar com a presença dos visitantes. Era um mundo vivo e dinâmico, muito diferente do mundo dos humanos e ainda assim tão cheio de força e mistério.

Jardim Botânico de Porto Alegre. Foto: Claudio Marcon em flickr.

Outra majestosa árvore muito presente em minha vida é a paineira que há décadas ocupa parte da esquina de minha rua. Uma gigante estrutura viva, com galhos que cruzavam toda a rua e raízes proeminentes. Era sobre essas raízes que o senhor Kleber, um amigável vizinho, desfrutava as tardes de sua aposentadoria. Hoje o senhor Kleber já não mais lá se encontra, mas a paineira resiste, firme e altiva, mesmo que o progresso tenha ordenado sua poda, cortando o galho que formava um tão lindo arco sobre a rua.


Enfaticamente acredito que tudo o que recebemos quando crianças, será parte de nossa bagagem emocional por toda a vida. Reverbero nas árvores que planto hoje a presença reconfortante das árvores que me deram sombra, alimento e paz na juventude.


Há pessoas que plantam árvores para parar a desertificação, gerar alimento, sombra, para fins comerciais, paisagísticos, para o equilíbrio ambiental, para deixar o planeta mais verde para as gerações futuras, entre tantos outros motivos – todos eles imprescindíveis. Mas pessoalmente, planto árvores porque as amo, porque amo a natureza. Não as planto pensando no bem-estar da humanidade, mas sim na vivência delas mesmas e das florestas em si.


Acredito na verdade profunda que reside no mundo natural, na harmonia elementar dos pássaros soltos pela mata verde, na graciosa presença das abelhas, na arquitetura perfeita e inexplicável que reside numa flor.





Realizar o plantio de novas árvores também faz parte de um ciclo natural de troca. Tudo o que temos vem da natureza. Nossas roupas, alimentos, utensílios, nossa casa – tudo ao nosso redor é parte do que a natureza nos provém.


Acrescentar mais árvores no planeta é uma forma ética e coerente de manter, pelo menos em parte, o equilíbrio de nossa balança existencial. Não me parece correto viver apenas para consumir o que a natureza oferece, sem em nada retribuir. Tenho assim motivos de sobra para continuar humildemente o meu trabalho.


Se no futuro as árvores que plantei forem o ponto de partida para o renascer de novas formas de vida, então me sentirei honrada pelo fato da natureza ter aceito minha pequena contribuição.


As árvores estavam aqui antes de mim e estarão depois de todos nós. Elas são a manifestação da vida que insiste em brotar apesar do caos e da ganância humana. Cabe a mim servir o seu propósito como forma de sentido dentro de minha simples existência. A lição que recebo das árvores é que a vida prossegue e essa força deve ser respeitada em toda sua plenitude. 


 



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