• Nara Guichon

Reciclagem: todos a serviço de um mundo mais limpo e justo


Todos podemos colaborar planetariamente para o bem do todo. Aqui no blog frequentemente cito diversas práticas que visam reduzir o impacto humano sobre o meio em que vivemos.


Mas poucas coisas são mais eficazes em termos de preservação E justiça social quanto a reciclagem. Não se trata apenas de reaproveitamos algo que iria ser jogado no lixo, me refiro aos protagonizas dessas ações, homens e mulheres que vivem do trabalho de reciclagem de resíduos.


Esse é um trabalho nobre, árduo, pouco valorizado e quase sempre esquecido pelo poder público, mas vital para o equilíbrio planetário. Um trabalho que muda vidas, refletindo invisivelmente no todo e que precisa ser reconhecido com mais empatia e respeito por todos nós.


A verdade é simples e cristalina: não existe lixo. Tudo o que descartamos possui algum valor, seja financeiro, biológico ou mesmo social. O que nos falta é a correta percepção de que existe um universo de possibilidades em tudo o que abandonamos em lixões e aterros em todo o Brasil. E para mudar isso precisamos enxergar e valorizar quem trabalha neste setor.



Reciclagem de papeis e papelão. Foto: Unsplash.

Um mercado de trabalhadores invisíveis


Erroneamente pensamos que os catadores de resíduos são poucos em nossa sociedade. O anuário de reciclagem feito pela Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (ANCAT) e pelo Instituto Pragma, em 2021, aponta que existem pelo menos 1850 associações de catadores em todo o Brasil, mas o número deve ser bem maior, uma vez que muitas associações não são devidamente cadastradas.


Já o levantamento feito pelo Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), contabilizou pelo menos 800 mil agentes ambientais – nome correto e mais coerente aos trabalhadores da reciclagem. Um número expressivo e que na prática certamente é bem maior.


Segundo esse mesmo levantamento, pelo menos 70% desses profissionais são mulheres. Estamos falando de nada menos que cerca de 500 mil mulheres que trabalham diariamente em ruas, comércios, áreas residenciais, parques e praias na árdua tarefa de transformar lixo em valor e sustento para suas famílias.


Essa é uma realidade cruel que jamais é exibida na grande mídia. As grandes responsáveis pela verdadeira prática ambiental não são famosas, nem fazem parte de governos ou de empresas poderosas. São mulheres que colocam a mão na massa e que apesar de todo o descaso público continuam firmes em suas jornadas.


Muitas delas são mães solos que cuidam sozinhas de suas famílias, tendo por base apenas a renda obtida com a reciclagem. Em muitas cidades sem o serviço de coleta seletiva, são essas trabalhadoras e trabalhadores o único meio de reciclagem dentro de uma cadeia produtiva que não visa o reaproveitamento. Ou seja, sem eles tudo estaria mais uma vez destinado ao descaso dos lixões.


Incentivar e valorizar esse trabalho é bem mais que um ato ecológico, é um gesto de respeito direcionado a milhares de rostos invisíveis que trabalham dia e noite para dar um novo significado ao que tratamos erroneamente como lixo.



Agentes ambientais de reciclagem. Foto: projeto Colabora.


O Brasil no cenário mundial


Segundo dados de 2021 da Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais), apenas 4% dos resíduos recicláveis do Brasil são devidamente aproveitados. Em países com o mesmo nível de desenvolvimento, como Chile, Argentina, África do Sul e Turquia, a taxa é de 16%.


Ao contrário do que se pensa, o mercado dos catadores e recicladores de resíduos não é uma economia menor. Na Alemanha, onde mais de 70% de todos os resíduos produzidos são reciclados, o lixo é visto como um verdadeiro tesouro.


O governo alemão incentiva a população a destinar corretamente cada item que poderia ser descartado de modo imprudente. Todas as empresas são legalmente responsáveis pelo sistema de reaproveitamento de tudo o que produzem. Uma garrafa plástica de água, por exemplo, precisa ter desde a fabricação até o consumo final um plano de reaproveitamento. O mesmo vale para qualquer tipo de produto, seja ele industrial, artesanal ou mesmo orgânico.


Outro exemplo a ser seguido é o da Coréia do Sul. Em 1995 a taxa de reciclagem deste país asiático era de apenas 3%. A Coréia então passou a enfrentar diversos problemas hídricos e de poluição por conta do incorreto manejo de seus resíduos e decidiu revolucionar o setor. Hoje estima-se que a Coréia do Sul reaproveite cerca de 95% de todo os seus resíduos.



Máquina que troca garrafas PET por créditos do governo alemão. Foto. DW/Rainer-Hackengerg


O problema do “lixo misturado”


Além da falta de incentivo governamental, o Brasil enfrenta um problema ainda maior: a falta de conscientização do público consumidor. Somos educados a usar e descartar sem pensar no destino final de tudo o que consumimos.


Além do descaso, os agentes ambientais de reciclagem têm que lidar com o problema do lixo misturado. Imagine que o seu lixo diário seja coletado por uma dessas cooperativas. O que eles encontrarão lá dentro?


A maioria das pessoas simplesmente descarta todo tipo de material sem critério, como se a lixeira fosse um buraco negro onde tudo o que não serve mais simplesmente desaparece. Temos que nos reeducar e incorporar a responsabilidade de todos os nossos atos. Devemos nos tornar responsáveis pelo que entra em nossas casas e os destinos que damos a estes bens, sejam eles quais forem. Pensando assim, obviamente nos responsabilizaremos pelo que não precisamos mais.


Ao misturarmos papéis, plásticos, vidro, metal e restos de alimentos num único recipiente, estamos impossibilitando que muitos desses materiais se tornem renda para inúmeros trabalhadores. E o lixo que não vira renda se torna problema ambiental e social. Essa realidade só pode mudar a partir de nós.



Separar o lixo é um ato essencial. Foto: Wix Media.


Como ajudar


Colaborar para um planeta mais limpo e com mais igualdade social aos agentes ambientais de coleta é muito simples. Tudo depende de 4 conceitos fundamentais: separar, informar, pensar e agir:


Separe seu lixo


Comida é diferente de plástico, plástico é diferente de papel e assim por diante. O maior problema das cidades que possuem coleta seletiva é que as pessoas não separam seus resíduos da maneira correta. Esse problema pode ser resolvido com o uso de lixeiras domésticas com vários compartimentos, ou apenas com um pouco de bom senso na hora de descartar o lixo.


Separe papel, plástico, vidro, metal e material orgânico. É essencial também lavar as embalagens antes de as descartar, pois as sobras de alimentos nas latas, vidros e plásticos acabam impedindo a reciclagem. O resto de resíduos nesses recipientes também acabam fermentando e atraindo insetos e roedores, o que interfere negativamente na saúde pública e ambiental. Pense que lá na frente um trabalhador da reciclagem irá ser beneficiado por esse gesto.


 

Aqui é importante dizer que cerca de 50% do que é destinado ao lixo é matéria orgânica que pode e deve ser compostada. Ao decidirmos adotar a prática da compostagem, os benefícios são muitos e alguns até mesmo invisíveis:


  • O lixo transforma-se em adubo.

  • O adubo enriquece o solo, que por sua vez ganha vida, dando espaço para o surgimento de minhocas e tantos outros organismos que alimentam pássaros.

  • Nesse processo, inicia-se uma cadeia vital, com a polinização de plantas, que colabora na perpetuação da vida de diferentes espécies


Menos resíduos orgânicos é sinônimo de menos lixo nas ruas, e, consequentemente, menos caminhões de coleta transitando pela cidade.


 

Informe-se sobre as cooperativas de sua cidade


Existem cerca de 1800 cooperativas de catadores espalhadas pelo Brasil. O número não é ideal, mas certamente é um bom começo para mudarmos a nossa relação com o descarte.


Através do site do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCMR) é possível saber mais sobre as iniciativas no seu estado.


No site da Associação Nacional de Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (ANCAT) também é possível se informar mais sobre o assunto. Na dúvida, contate o departamento de meio ambiente do seu município.


Pense antes de comprar (e descartar)


A principal mudança ocorre na forma como consumimos. A cada novo produto, avalie se elementos como embalagens, frascos e demais componentes podem ser facilmente reciclados.


Algumas empresas já possuem política de economia circular, ou seja, o produto poderá ser descartado num posto específico e reenviado para a empresa que o fabricou. Informe-se e apoie quem colabora para um mundo mais limpo e justo.


Aja como um agente ambiental


Se não puder ter os seus resíduos coletados devidamente, busque reduzir a produção dos mesmos. O reaproveitamento de embalagens, garrafas, tecidos, roupas e afins é um ótimo modo de poluir menos o nosso planeta. O mesmo vale para os resíduos orgânicos, que podem e devem ser reaproveitados com o uso de uma composteira doméstica.


Elementos como plásticos e papelão podem ser enviados para cooperativas artesanais, que usam esses produtos como base para novos itens.


Se você acha que estas atitudes são muito trabalhosas, lembre-se de que não temos tempo a perder. Temos que agir aqui e já. Cada atitude conta.


O mundo muda quando eu mudo.



 

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