• Nara Guichon

Se as abelhas estão em risco, nós também estamos

Atualizado: 26 de out. de 2021



Nós, seres humanos, temos a estranha mania de julgar tudo ao nosso redor dentro de nossa escala. Quando falamos da importância da preservação natural, pensamos muitas vezes apenas nos seres vivos de grande porte. De modo impensado desprezamos a silenciosa e imprescindível importância dos pequenos seres.


As abelhas são desses seres em que o tamanho diminuto esconde uma importância incalculável. Os estudiosos arriscam dizer que as abelhas representam algumas das mais sofisticadas formas de vida sobre a Terra. A complexidade de suas ações mostra-se crucial para a manutenção de milhares de outros seres vivos – de plantas até animais mamíferos.


A humanidade muitas vezes não faz ideia de quão complexa é a vida de um ser vivo tão essencial quanto a abelha. Uma única abelha realiza cerca de 40 voos por dia, cruzando em média de 12 km, numa maratona que pode incluir, num único dia de trabalho, até 240 mil flores (dados do portal Um só planeta). E embora o mel seja vendido como um produto “comum”, cada abelha produz apenas 5 gramas de mel por ano. Um quilo de mel exige nada menos que a visita a 5 milhões de flores.





A alimentação do planeta em risco


Certamente as abelhas são os insetos que mais interferiram no curso da vida humana ao longo dos séculos e ainda cabe a elas um papel decisivo para a nossa sobrevivência. Sem elas a humanidade enfrentará possivelmente a maior crise alimentar e ecológica de toda a sua história.


A preocupação dos cientistas com a preservação das abelhas não é por acaso. O trabalho de polinização desempenhado por essas pequenas e incansáveis trabalhadoras naturais é o ponto de partida para a fecundação de diferentes espécies botânicas – muitas delas parte do nosso cardápio há milênios.


Sem as abelhas não existe cacau (nem chocolate), não existe café, nem tampouco acerola, soja, laranja, maracujá, castanha-do-Pará, maçã, melancia, melão ou tangerinas. Segundo a AMDA, no Brasil, 76% das fontes de alimento dependem diretamente da polinização das abelhas para existir.


Abelhas são também como um termômetro natural da qualidade de um bioma. A presença delas é indicativo de que a natureza está seguindo o seu curso. Por outro lado, a ausência de colmeias pode significar o colapso de toda uma cadeia de seres vivos.



Boa parte das frutas que consumimos não existiria sem as abelhas. Foto: Unsplash.


O uso indiscriminado de pesticidas a agrotóxicos (o Brasil se tornou atualmente o país que mais utiliza pesticidas no mundo) é certamente o maior causador do desaparecimento das abelhas. Ao entrar em contato com essas substâncias, as abelhas operárias retornam até a colmeia e lá espalham os componentes tóxicos para as demais. Ou seja, ao tentar aumentar desenfreadamente a produção de alimentos, estamos destruindo o ciclo natural que é base de toda a abundância alimentar disponível em nosso planeta.


Outro fator que provoca desequilíbrio nesta cadeia é a poluição do ar. A fumaça das cidades, indústrias e das queimadas interrompe o ciclo de detecção dos odores florais e afastando as abelhas de suas rotas. Isso sem contar com o desmatamento desenfreado e a monocultura, outros fatores que colaboram para o desaparecimento das abelhas.


O que podemos fazer


Esse não é um problema de fácil solução. Depende de uma mudança radical de consciência e de uma imediata tomada de decisões. Para nós, pessoas comuns, cabe colaborar para um ambiente mais amigável para as nossas amigas “amarelinhas”. Cultivar espaços verdes, com diversas espécies florais, já é um bom começo.


Outra medida importante é não consumir mel e derivados de maneira irrestrita. Evite o mel feito em escala industrial. Pesquise em sua região as cooperativas de pequenos apicultores e saiba que mel não é açúcar, é um produto valioso e que deve ser consumido com prudência.


Por último, é importante desenvolver uma sólida consciência ambiental, que nada mais é do que se informar e compartilhar informação com outras pessoas.


Através de uma postura crítica podemos deixar de comprar de empresas que utilizam pesticidas, pressionar nossos representantes por políticas ambientais mais severas ou até mesmo nos unirmos em torno de uma comunidade visando proteger os biomas e as abelhas. Claro, tudo começa com a vontade de agir e a mão na massa. As abelhas trabalham incansavelmente para manter a natureza em curso. Creio que podemos tirar parte do nosso tempo para ajudar a salvá-las.


Há algum tempo cultivo um jardim de rua (saiba mais aqui) e sigo plantando espécies florais sempre que possível. Repito em minha vida a lição que as abelhas nos dão todos os dias: ninguém é tão pequeno que não possa ajudar a fazer a diferença.


 


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