• Nara Guichon

Consumismo, internet e o futuro do planeta

Como as compras online fazem parte de um sistema de degradação humana e ambiental


Foto: Unsplash.


A internet mudou muitas coisas em nossas vidas. Como artesã, artista e designer posso dizer que as redes sociais colaboraram muito para levar meu trabalho e minhas ideias para milhares de pessoas ao redor do mundo.


Quando decidi dizer sim a criação de um blog para difundir minhas ideias e princípios, por total falta de conhecimento, não acreditava que iria repercutir tanto. Hoje sei que o público digital é amplo e diversificado. É possível criar uma conexão com absolutamente todos os gostos, crenças, necessidades.


Costumo sempre citar que temos infinitas informações e respostas para nossas dúvidas e anseios na ponta dos dedos ou em um simples clique. mas o caminho de grandes oportunidades no meio digital também oferece diversos percalços.


A internet mudou radicalmente a forma como consumimos. Não estou falando apenas do consumo de informação, mas do consumo de bens e serviços, de roupas, sapatos, acessórios, alimentos, equipamentos eletrônicos e toda uma enorme variedade de coisas.


Comprar online parece fácil, algo quase mágico. Você pode, num piscar de olhos, clicar numa loja e receber em casa um vestido vindo da Ásia ou uma bolsa produzida nos Estados Unidos. Temos, na ponta dos dedos, acesso a coisas jamais vistas, imagens tentadoras criadas através de um marketing impecável que nem sempre nos revela a verdade por trás daquilo que divulgam.


Não é mostrado que o imediatismo das compras online estimula ainda mais o consumismo. E pior: boa parte do que compramos online vem de mercados industriais que exploram cruelmente a mão de obra e que poluem massivamente o planeta


Ao contrário da compra tradicional, comprar pela internet não nos coloca em contato direto com outras pessoas. Estamos sempre diante de uma máquina operada por um sistema de marketing criado para nos viciar.


Empresas como Amazon, Shein, Shopee e tantas outras que comercializam produtos em massa através da internet, escondem uma realidade brutal. Para que a sua compra chegue em sua casa em velocidade relâmpago, um rastro de degradação ambiental e humana é deixado para trás.




Não são raros os casos de roupas vendidas através de megalojas digitais apresentarem em suas etiquetas pedidos de socorro de trabalhadores em regime de escravidão moderna. Foto: Petition Org.



A Amazon é conhecida por suas condições degradantes de trabalho, com trabalhadores e trabalhadoras impossibilitados de irem ao banheiro por horas. Sem contar os inúmeros casos de humilhações e sua política ambiental absolutamente inescrupulosa.


Em 2021 veio à tona a chocante informação que a Amazon joga fora semanalmente em média 130 mil produtos em perfeito estado. São calçados, roupas, materiais de escritório, livros e até alimentos que, por uma questão de demanda e espaço de armazenamento, não são doados, mas deliberadamente descartados em lixões.


Sites como Shein, Shopee e tantos outros são canais de fácil escoamento para produtos de má qualidade vendidos por um preço muito abaixo do mercado. Essas ‘pechinchas’ na verdade custam caro. Maquiagens com metais pesados e cancerígenos, calçados sem procedência feitos com resinas altamente poluentes e claro, a onipresente fast fashion, a moda barata, descartável e produzida dentro de um sistema de completo descaso humano e ambiental.



Uma matéria do jornal The New York Times revelou a chocante prática da Amazon de jogar fora milhares de produtos em perfeito estado. Foto: The New York Times.



Não podemos nos esquecer: na fast fashion as peças não são feitas para durar. O capitalismo que depende do consumismo voraz precisa que os produtos sejam descartados o quanto antes para que o ciclo de consumo não cesse jamais.


Isso não quer dizer que a compra online seja totalmente imoral e ambientalmente destrutiva. Existem diversos exemplos de artesãos, estilistas, designers e criadores de produtos éticos e comprometidos com o bom uso dos recursos naturais. O desafio é saber separar o joio do trigo e escolher eticamente de quais lojas e criadores comprar.


A melhor forma de comprar é comprar menos


É bom saber que as compras através da internet serão sempre dependentes de um complexo sistema de transporte. Não podemos desejar ter todos os produtos do mundo sem pagar por isso um alto preço ambiental.


Esse vai e vem de caminhões e vans competindo para entregar em tempo recorde é um dos maiores aceleradores da poluição atmosférica em nossa década.


Quando o assunto é comprar online, recomendo sempre essa regra de 3 passos:


Compre local

Olhe na sua cidade, no seu bairro, na sua região. Com um pouco de atenção você irá encontrar comerciantes regionais que precisam do seu incentivo. Use as redes sociais para descobrir as riquezas criativas da sua região.


Comprar localmente reduz a emissão de poluentes e ainda fortalece a economia do seu entorno.


Compre para durar

Achou um produto que lhe interessa? Pesquise se ele é feito para durar.


Na Europa ainda é tradição deixar de herança um casaco ou uma bolsa. Esse hábito de passar adiante peças de roupa e acessórios remonta dos tempos de guerra, mas diz respeito também ao hábito de sempre comprar coisas feitas para durar. Se puder, gaste um pouco mais num produto durável, que não será descartado por outro em poucos meses.


Compre para resolver um problema, não por impulso

Comprar por impulso é o grande problema da internet.


Evite seguir marcas que não são comprometidas com os valores éticos e ambientais e pondere antes de clicar na compra. Grandes companhias capitalistas são especializadas em induzir seus consumidores a comprarem coisas que não precisam de verdade. Evite cair nessa armadilha sempre ponderando se realmente precisa de mais um produto em sua vida. Faça as seguintes perguntas:


· O produto foi feito com respeito às pessoas e ao planeta?

· O produto irá resolver um problema real?

· O produto será necessário para o seu bem-estar?


Se a resposta a alguma dessas perguntas for não, você certamente estará comprando apenas para seguir a moda, o impulso de consumismo ou para se sentir momentaneamente bem.


A internet é uma ferramenta incrível, mas que deve ser usada com consciência e atenção, especialmente quando o assunto é consumo.


Menos consumismo e mais reaproveitamento. Menos capitalismo desenfreado e mais mudança de consciência. Só assim poderemos vislumbrar um futuro mais justo e globalmente mais limpo.



 

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