top of page
Post: Blog2_Post

Efúgio: abrigo contra o caos

  • ecoprintnaraguicho
  • 29 de set. de 2025
  • 2 min de leitura

Efúgio: algo que ampara e protege.

Minhas obras, com suas superfícies porosas, densas, planas, macias ou rígidas, proporcionam suporte às curvas que lembram ninhos, proteção, abrigo, acolhimento, refúgio. Invariavelmente, perpetuam um grito de socorro e alerta na urgência para com o necessário restabelecimento e cuidado do planeta.


Acolher o quê? A tão dilacerada vida ou o caos? Vivemos uma emergência climática sem precedentes, e meu trabalho explicita isso. O que eu proponho como trabalho têxtil traz, em sua matéria e processo, o que precisa ser denunciado ou valorizado. Ali, para quem souber observar, estão as redes de pesca de poliamida, descartadas como lixo, abandonadas no mar, poluindo os oceanos, matando milhões de animais e aniquilando a nossa própria vida. Mas, uma vez que esse material existe e está no mundo como lixo, por que não podemos dar-lhe um outro rumo, um outro uso?


O encontro com as redes

Moro no sul de Florianópolis, região marcada pela pesca artesanal. Em 1998, ao caminhar pela praia, comecei a reparar não apenas no lixo trazido pelas correntes, mas nas centenas de redes de pesca abandonadas. Eram restos desgastados pelo uso, descartados como entulho. Foi ali que decidi me apropriar desse material e dar a ele outro destino.


As redes e petrechos da indústria pesqueira representam hoje cerca de 50% da poluição dos oceanos. Ao transformá-las, busco retirar da natureza o que ameaça a vida, trazendo à tona o que está submerso e invisível aos nossos olhos. Por décadas, criei e produzi moda limpa e atemporal, mas, aos poucos, fui percebendo que, mesmo trabalhando com ética, o produto era alimento a ser consumido. A transição para a arte foi surgindo espontaneamente, sem ser planejada, mudança esta que ampliou o alcance de meu ativismo.


O processo como ritual

O processo inicia com o recolhimento das redes, para então lavá-las com água e sabão natural. Depois vem o tingimento com pigmentos naturais: ferro, cúrcuma, casca de cebola, erva-mate, vinagre, fogo, terra, tempo. Em um processo absolutamente manual, as redes são cortadas em fios. Para a construção das obras, faço uso da primeira técnica têxtil aprendida na infância, o tricô manual — só que agora em total desconstrução da mesma.


Entram também a costura manual e o enrolamento de fios, criando estruturas orgânicas que parecem respirar, em diálogo constante com a vida. A prática é de interação silenciosa e constante com os elementos naturais.


O amadurecimento poético

A prática vai naturalmente me dando conhecimento no desenvolvimento das obras. Ao longo destes anos, muito aprendi, principalmente na questão da estrutura, que pode se traduzir como suporte a tudo que venho fazendo e aprendendo em diálogo constante e silencioso com os materiais e as obras em si.


Efúgio foi, e segue sendo, minha ode ao planeta, transparecendo que o que precisamos é de reparo, aconchego, um olhar atento e cuidadoso para com todas as formas de vida.



Comentários


© 2023 Nara Guichon. Todos os direitos reservados.

  • Facebook
  • YouTube
  • Instagram
bottom of page