• Nara Guichon

Qual o verdadeiro sentido da palavra sustentabilidade?


Foto: Unsplash

Sustentabilidade. Vemos essa expressão em diversos lugares, nas embalagens de produtos alimentícios, cosméticos, vestuário, em livros, filmes, eventos, palestras etc. A lista é infindável. Mas certamente, de todos os conceitos que perderam o real significado com o tempo, a palavra sustentabilidade me parece o mais impactante.


Sustentabilidade se tornou um conceito incrivelmente popular e ao mesmo tempo amplamente desconhecido. Todos falam sobre isso, poucos realmente sabem o que estão dizendo. O uso desmedido e impensado desse conceito o transformou numa ideia vaga e não mais numa ação efetiva.


Quase nunca uso essa expressão por considera-la vazia. Isso não quer dizer que não exista de fato alguma sustentabilidade e projetos sérios nessa área, mas é imprescindível aprender o quanto antes a separar o joio do trigo para não se deixar enganar. Ocorre que o capitalismo sequestrou essa ideia no esforço de colorir de verde tudo o que no fundo não é tão sustentável assim. Já existe até um termo (em inglês, claro) para isso: greenwashing, que em português tem sido chamado de “mentira verde” ou “sustentabilidade fake”. São produtos, empresas, projetos e ideias comerciais que parecem ambientalmente corretos mas não são.


Quando olhamos de perto essa sustentabilidade de mentirinha não passa de marketing imoral, quase sempre amparado por poderes políticos escusos que trabalham em prol do interesse de grandes empresas. A ironia é pensar que a sustentabilidade, tal qual a mídia nos mostra, não se sustenta.


Essa prática é duplamente nociva e vou explicar os motivos. Primeiro porque cria nas pessoas uma falsa ideia de colaboração com o meio ambiente. Ou seja, os consumidores se sentem ecologicamente corretos, quando na verdade estão promovendo ainda mais poluição e degradação do planeta.


Um bom exemplo é a polêmica em torno dos canudos de plástico. Muitas empresas promoveram campanhas pela troca dos canudos de plástico por outros de papel, só que os novos canudos ecológicos vinham embalados em... plástico. É o famoso trocar 6 por meia dúzia.


Nesse contexto o consumidor está sendo enganado e estimulado a comprar mais e mais, com o pretexto de que tais produtos não fazem mal ao planeta e que o consumismo neste caso é uma ação ambiental sustentável. Não preciso dizer que é na indústria da moda que encontramos alguns dos exemplos mais grotescos dessa falsa sustentabilidade.


Um caso notório é o do chamado couro sintético, que substituiria o couro animal e seria sustentável e 100% reciclável. O que não se diz é que esse tipo de material é normalmente feito de resinas derivadas do petróleo. Ou seja, estamos falando de plástico da pior qualidade, de um material extremamente poluente, de difícil decomposição e de baixíssima durabilidade, que deixa um rastro de micropartículas que sufocam a vida dentro dos oceanos.


É evidente que o couro natural também é poluidor, sem contar a questão da crueldade contra animais (nesta matéria você poderá saber mais sobre o macabro mercado de couro animal), mas trocar o couro tradicional por outro “mais moderno” ou supostamente sustentável não resolve o problema. Mais uma vez o que vemos é apenas uma roupagem verde para produtos poluentes que nada têm de ecológicos.



O caso dos canudos de papel é um clássico exemplo de 'sustentabilidade fake'. Foto: Wix.


O segundo problema da falsa sustentabilidade é que ela desvirtua a nossa noção de ativismo ambiental. Muitas ONGs e projetos realmente sérios acabam não recebendo a devida atenção e valor da sociedade, enquanto projetos pomposos e caros, mas totalmente falsos e sem resultados reais, são divulgados pela grande mídia como “revolucionários”.


Falsas embalagens recicláveis, falsos veículos não-poluentes ou roupas e acessórios chamados de veganos feitos com compostos químicos altamente nocivos ao planeta são alguns exemplos. Não se trata de produtos criados com baixo impacto ambiental, mas apenas as mesmas porcarias de sempre revestidas com um ar “sustentável”.


No final das contas a degradação ambiental continua sendo a mesma, os mecanismos de injustiça social e desvalorização da mão de obra são os mesmos - nenhuma mudança ocorre em nenhuma das etapas de criação e consumo. Boa parte de tudo o que chamamos de sustentável na prática não sustenta nada: nem a economia local, nem a igualdade social, nem tampouco o equilíbrio do planeta.



Nem toda sustentabilidade...

A Organização das Nações Unidas, ONU, definiu em 1987 com clareza o conceito de sustentabilidade:

“Sustentabilidade é suprir as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades.”

Essa é uma ideia incrivelmente simples, elegante e eficaz. Suprir agora sem comprometer o amanhã. Usar com responsabilidade e respeito tudo o que a natureza nos oferta.


Isso quer dizer que só podemos usar a palavra “sustentabilidade” diante de uma verdadeira mudança de consciência de consumo. Não podemos ser consumistas e sustentáveis ao mesmo tempo – uma coisa exclui imediatamente a outra. A existência humana depende dessa mudança, depende da redução do consumo e do esforço em retirar do planeta apenas o necessário – nem mais, nem menos.


Enquanto a sustentabilidade for apenas um slogan de marketing ela não será genuína. E enquanto as empresas usarem essa expressão para vender mais produtos, continuaremos a testemunhar o caos desesperador das mudanças climáticas, da fome e da degradação da vida.


Um passo para essa mudança real é pesquisar, se informar, buscar sempre conhecer a origem e a composição do que consumimos. Só assim, com uma visão crítica e consciente, podemos fazer parte da solução e não da poluição.


 


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