• Nara Guichon

Tecendo a vida

Atualizado: 4 de jan.

Algumas reflexões sobre minha trajetória como artesã e empresária




Existem pessoas que são transparentes em suas manifestações e ações, mesmo quando são de poucas palavras. Acho que me encaixo nesse formato.


Quando criança, a iniciativa já transbordava em meu ser: sabia o que queria. E claro, com pouca idade não tinha pleno conhecimento e nem poderia fazer um plano de vida ou profissional, mas isto foi se revelando naturalmente conforme crescia.


Minha irmã e eu fomos criadas por minha avó, que sempre dizia não temer por mim ou pelo meu futuro, pois, segundo ela, “eu fazia acontecer”. Também sempre aprendi por observação e prática. Assim foi com a culinária, costura, jardinagem, trato com os animais. Parecia que tudo me interessava, era ávida por fazer, agir, conhecer.






Um bom começo


Somente a poucos anos percebi que minha veia empresarial fora fortemente presente desde muito cedo. Aos nove anos de idade recebi minha primeira encomenda de tricô. Fiz para uma vizinha que iria ser avó um casaquinho e um par de sapatinhos de bebê. Lembro-me que gastei dois novelos de lã. Com o valor recebido pela encomenda, fui até uma loja de fios e comprei mais quatro novelos. Um bom e feliz investimento para uma menina que se interessava muito mais por artes e manualidades do que pelas ciências exatas.

E assim fui crescendo, frequentando quando podia uma ou outra aula no ateliê livre de artes, promovido gratuitamente pela prefeitura de Porto Alegre, entre outras. Inúmeras vezes levei minhas criações para a escola, as quais vendia para as colegas. Eram itens cobiçados pelas adolescentes ávidas por coloridas e acessíveis pulseiras que eu produzia.

Frequentei posteriormente aulas de cerâmica e pintura, mas o têxtil e eu nunca nos distanciamos. Dos dezesseis aos vinte anos, entregava meus trabalhos em tricô para duas boutiques em Porto Alegre, todas peças criadas em técnica Jacquard, pois não me interessava por criações sem elaboradas combinações de cores e formas. Enquanto isso, as encomendas particulares também apareciam e se acumulavam de um inverno para outro.


Aprendizado constante


Essa produção artesanal me levou a procurar tricoteiras que dominassem a técnica de desenhar com fios. Isso me permitiria criar todas as peças únicas, calcular minuciosamente cada modelo e tamanho, enquanto as colaboradoras, exímias em sua arte, reproduziriam fielmente o que eu desenhava. Nesse interim, decidi viajar pelo Velho Mundo. As agulhas de tricô? Foram na mala, claro!


Atravessar o oceano em tempos de ditadura não foi simples ou barato. Na época, para sair do país deveria pagar-se um valor bem alto, especialmente para uma jovem cuja as economias advinham do fazer pães integrais. Nessa época minha irmã e eu trabalhávamos em uma farmácia da família e após a jornada de trabalho eu amassava pães e cucas integrais repletas de especiarias, deixando-as em fermentação noite adentro. A rotina era pela manhã assar, à tardinha entregar e eu já economizava os lucros advindos da minha modesta e eficiente “empresa”.


Do outro lado do oceano tricotei roupas infantis para uma boutique em Paris, fiz vestes de finas lãs em inúmeras encomendas particulares e assim minha viagem, com passagem só de ida, se estendeu por dois anos.


Novamente o tricô ajudou no sustento de minha estadia, e não só ele, mas também o ofício de culinarista. Cozinhei jantares vegetarianos na Itália, fiz sucesso ao mesclar ingredientes tipicamente brasileiros com ingredientes italianos, ministrei cursos de panificação. Ou seja, esse impulso sempre me levou adiante, me fez criar, descobrir, atravessar oceanos e hoje percebo que não refletir é vantagem. Não meço, não pondero: faço.


Novos caminhos


Ao retornar ao Brasil, fui proprietária do segundo restaurante vegetariano de Porto Alegre, o qual em seu cardápio já usava exclusivamente legumes e verduras orgânicos. Entre 1980 a 1982 o restaurante foi um sucesso. Deixei o projeto para trás e mudei para Santa Catarina pela sede de mar e necessidade de morar em meio a natureza.


Foi nesta época que frequentei duas oficinas de tecelagem artesanal, não mais do que trinta horas de vivência, mas foi o bastante para que eu trocasse a profissão de tricoteira para tecelã. Os estudos foram complementados com um estágio de três meses no ateliê do Áquila Klippel e da Sheyla Barcellos, em Florianópolis.






Com a prática do tecer manual, senti necessidade em criar meus próprios fios, uma vez que o que era ofertado no comércio não permitia criar com as texturas e tonalidades que só eu mesma poderia inventar. Lãs com padrões irregulares, cheias de harmonia de tons, isso era algo que não existia, mas eu sempre encontrava um modo de fazer.


Esse conjunto de práticas resultava num rendimento relativamente superior ao do tricô manual, o que posso dizer que foi muito positivo, pois me permitira criar mais e para começar novo trabalho era obrigatoriamente terminar a peça anterior, conferindo mais disciplina ao trabalho.


Amadurecimento e arte


Aprendi muito, o suficiente na época para abrir as portas de meu próprio negócio “oficial” e mesmo assim nada convencional. Sem ter onde expor e comercializar as peças que produzia, sem pestanejar instalei a placa esculpida manualmente do Engenho Arte, na frente do engenho de farinha de mandioca, propriedade que minha mãe restaurava para ali fazer sua morada.



Os turistas eram raros por essas bandas, mas eu não via problemas. Mesmo que no primeiro ano tivesse aparecido não mais do que meia dúzia deles, aos poucos o ateliê foi sendo conhecido.


A mudança veio quando recebi a visita da então cliente Anna Maria, que acabou por se tornar uma grande amiga. Ela comprou nada menos que a metade das peças ali expostas (que acontecimento!) e afirmou que meu trabalho deveria ser exposto e comercializado também em São Paulo. Conforme combinado, lá fui eu fazer minha primeira exposição na casa de tão generosa pessoa, que chamou parentes, amigas, pacientes, todos presentes para o evento.


As mostras em São Paulo foram realizadas por décadas, algumas vezes na casa da Anna, noutras em feiras de design e afins.

Não lembro exatamente quando abri uma empresa oficialmente, mas como toda empresa, a minha também tinha um serviço de contabilidade que cuidava da burocracia e essa era a única convenção em minha forma de ser empresária.


Lembro que uma vez, mais por curiosidade do que por necessidade, contratei uma consultoria empresarial. Tanto o profissional que veio atender, como eu, quase enlouquecemos. Constatamos que as regras empresariais não se aplicariam naquele tipo de negócio, criado de modo intuitivo e ainda assim muito saudável em sua jornada financeira.


O segredo, posso afirmar que é trabalhar com quem você confia, ter uma excelente assessoria de imprensa e sobretudo produzir e comercializar peças de altíssima qualidade, sem nunca deixar de ser totalmente transparente na venda.


Contar a história do que você produz é essencial. Fazer o cliente conhecer mais sobre o processo criativo, que essa ou aquela ideia surgiu em determinado momento, contar sobre a inspiração, a história e trajetória da matéria-prima (no meu caso as lãs, as redes de pesca e os tecidos garimpados em viagens em brechós), são esses relatos que fazem as pessoas vivenciarem a criação, a expressão, a energia modificadora e laboral inserida em cada item.

Em resumo: afirmo que, com paixão e paciência, a gente chega lá sem nem se dar conta da passagem do tempo. E o melhor de tudo, em minha trajetória posso afirmar que sempre estive ao mesmo tempo em férias e trabalhando. Momentos difíceis tive sim, mas cresci desde cedo escutando minha avó se queixar da crise, de que “os mil réis valiam nada”, que a inflação, que o governo e por aí vai…


Dentre tantos aprendizados, não deixar-se levar pelos ventos que podem lhe fragilizar é certamente uma prioridade.

 

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