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  • Nara Guichon

O limite do planeta


"Não existe planeta "B"" - Protesto contra a destruição planetária na Europa. Foto: Unsplash.


Criamos e estabelecemos uma conduta em nosso planeta que o está levando ao esgotamento.


A mídia, apesar de muito alardear, não é cristalina em suas informações. Estamos vivendo em uma terra esgotada e doente, na qual devastados ecossistemas, que naturalmente colaboravam entre si, gerando equilíbrio e bem estar, já perderam a capacidade de se autogerir e continuar se desenvolvendo.


Eu que resido em meio a um pequeno reduto de Mata Atlântica há quarenta anos, tive ao longo deste período a oportunidade de acompanhar as mudanças impostas neste reduzido paraíso. Infelizmente, a olhos nus percebe-se a perda da biodiversidade ano após ano.


No meu quintal tenho uma frondosa árvore que no tempo de sua florescência era visitada por milhares de borboletas, um espetáculo ímpar, gratuito e encantador. Esse show não tenho mais e sei que nunca mais terei.


Poderia aqui enumerar diversos casos parecidos. Os lírios do brejo que embeveciam os transeuntes da pequena estrada com seu doce perfume ao entardecer, o ensurdecedor "batuque" dos milhares de sapos martelo nas quentes noites de verão... Tenho maravilhosas lembranças que me levam a questionar o porquê de tal comportamento autodestrutivo. Não há uma resposta simples, nem lógica, somente a certeza de que o homem estará extinto, ou expulso do paraíso em poucas décadas.



Bioma em equilíbrio: uma raridade. Foto: Unsplash.


Amamos o poder e o ter, mas nos esquecemos que o simples também é valioso e que o que realmente necessitamos é de água e ar puros. Para sobreviver, não dependemos de shopping centers, nem de mega empreendimentos, nem de "valiosas" joias, valores e necessidades falsas criadas pela ganância, poder e exploração natural.


Consideramos selvagens os seres que vivem harmoniosamente nas florestas, no seio da natureza. Hoje em dia começa-se discretamente a perceber que essa conduta de ganância e exploração é desrespeitosa e aniquiladora. Infelizmente, não temos mais tempo hábil de nos redimir dessas atitudes tão destrutivas.


Nesta sociedade centrada no consumo, a capacidade produtiva é muito valorizada. Temos uma ânsia de produzir sem limites, baseados na ideia de que a natureza e suas dádivas são infinitas.


Olhamos para o mundo ao redor e agimos como se a natureza fosse um grande e colorido supermercado cheia de infinitos produtos à nossa disposição. Esse pensamento não é só mentiroso, é também inescrupuloso. Tudo o que o nosso planeta nos provém para o desenvolvimento da vida depende de uma delicada relação de produção e consumo. A água, o ar, a fertilidade da terra, os minerais, a madeira, as fibras, a vida animal e vegetal... tudo o que existe no planeta Terra pode um dia acabar e o equilíbrio que rege essas relações está sendo destruído pela ganância humana.


Já cruzamos o limite


Biocapacidade é uma expressão pouco usada, mas ela representa tudo o que a Terra pode ofertar a cada ser humano para que este se mantenha vivo de forma equilibrada.


Segundo dados da WWF apresentados pelo portal G1, cada pessoa precisa de 1,6 hectare global de recursos naturais, o mesmo que um quarteirão e meio. É como se enchessem um quarteirão e meio com água, ar, alimentos e tantos outros itens necessários para o desenvolvimento humano.


O problema é que o mesmo estudo nos aponta que a média do consumo mundial está em 2,8 hectares por pessoa e em breve atingirá a marca do dobro aceitável. Ou seja, para poder atender a voracidade de consumo de todo o planeta, seriam precisos pelo menos dois planetas inteiros.


No caso de países como os Estados Unidos, a linha de consumo é tão absurdamente alta que seriam necessários 5 planetas para atender a demanda.


O cálculo da biocapacidade mundial não é um número casual. Ele é realizado anualmente pela ONG Earth Overshoot Day, que pesquisa o impacto da voracidade capitalista sobre o planeta. A cada ano antecipamos a data de uso completo dos recursos naturais terrestres. Em 2022, a ultrapassagem foi no dia 28 de julho. Isso quer dizer que tudo o que foi consumido no mundo depois dessa data advém de uma exploração desenfreada que não pensa nas gerações futuras, nem respeita o ciclo natural dos biomas.


O resultado dessa conta que não fecha é uma tragédia cada vez mais próxima.


Aqui vale salientar: a ideia de consumo não é o problema. Todo ser vivo precisa consumir recursos para a manutenção de seu bem-estar. O problema é que a nossa sociedade consome de modo antiético. O que estamos vivenciando não é o consumo para a vida, mas o super consumo para o desperdício.



Poluição dos mares e praias, uma destruição cada vez mais presente. Foto: Unsplash.

Excesso e destruição


O vigente capitalismo predatório produz em excesso, alardeando sempre através de uma mídia igualmente inescrupulosa, que precisamos de mais roupas, mais objetos mais carros, mais, mais e mais.


Produzimos e consumimos também em excesso os alimentos. A fome mundial, e especialmente em nosso país, não é mais o efeito colateral da escassez natural, mas uma política de vendas que gera concentração de renda em nome do mercado. Poucos com muito, muitos sem nada. Ou seja, além do mau uso dos recursos naturais, o capitalismo ainda manipula a oferta de itens básicos como alimentos, remédios e vestimenta aos mais necessitados. Isso gera um cenário de total desequilíbrio social e natural no qual não apenas a vida humana é desvalorizada, mas também a vital natureza.


Um mundo exaurido de recursos não será um lugar bom de se viver. A dignidade humana sempre dependerá diretamente dos bens que a natureza nos oferta. Se não aprendermos a respeitar isso, o resultado que já estamos vendo não será nada agradável ou prazeroso.


Alguns dados são alarmantes. A Amazônia está perdendo sua capacidade de filtrar carbono e se tornando uma fonte emissora desse componente. O sertão e parte do cerrado brasileiro estão se transformando em deserto. A população mais vulnerável já é a que mais sofre com os eventos climáticos extremos.


Estamos a caminho de um mundo onde recursos essenciais como a água potável ou o ar puro estarão disponíveis apenas para um pequeno grupo de milionários e empresas controladoras.


Há um pensamento proveniente dos povos originários brasileiros que representa uma verdade cristalina: dádivas não são negociáveis. O frescor da brisa da manhã, a água límpida que corre de um riacho, o som dos pássaros, a sombra das árvores, o alimento que nutre nosso corpo e a alma, tudo isso são dádivas sem preço, tesouros naturais valiosos e insubstituíveis que devem ser usados com respeito e consciência.


Não é mais possível reparar o dano causado ao planeta, mas é viável diminuir os impactos que virão a nós e às gerações futuras.


Reduzir o consumo, comprar do pequeno produtor, reaproveitar e ressignificar o que já temos em casa. Essas são dicas que sempre dou aqui no blog, mas tudo começa com a mudança de consciência.


Precisamos entender nosso lugar no ciclo natural. Não estamos acima de nenhuma outra criatura, o planeta não é apenas nosso. O que diferencia nossa raça das demais é a capacidade de compreensão do verdadeiro valor da vida e sem isso nosso destino está fadado a extinção. Não há tempo a perder.


 

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