• Nara Guichon

Sem animais polinizadores, sem alimentos

A importância da manutenção da vida para um mundo com maior variedade alimentar




Foto: Unsplash.

Falar em polinizadores me traz à lembrança as vivências, breves ou extensas, nos jardins que cruzam nossas vidas. Florezinhas em beira de estrada, no meio das calçadas, pequenos milagres que passam desapercebidos por quem tem pressa. Minúsculas aos olhos humanos, gigantes para joaninhas, abelhinhas, zangões e toda uma legião de criaturas que nelas fazem a festa!


Quem não se alegra como zum-zum e algazarra da vida em dias ensolarados de jardins formados por plantinhas, que por insólito desconhecimento ou pura ignorância, pejorativamente chamamos de “matinhos”?


Poucos sabem que também aí reside a fonte da vida e que a destruição dessas criaturas coloca toda a variedade de frutas e alimentos em geral em sério risco.


Alimentos em risco


Maças, café, chocolate, algodão e tantos outros itens essenciais para a humanidade podem estar com os dias contados ou em vias de se tornarem artigos de luxo. Parece coisa de filme de ficção científica, mas essa realidade já está em curso.


Diversos alimentos e insumos naturais que estão em nossas mesas só existem graças ao mágico e vital processo de polinização. Isso quer dizer que certas espécies vegetais dependem diretamente da ação de animais para que o processo de nascimento, florescimento e frutificação ocorra corretamente, como ocorre há milhões de anos.


A tragédia que se anuncia é que grande parte dos animais polinizadores está desaparecendo num ritmo assustador. A destruição em massa dos biomas, o uso criminoso de agrotóxicos, as queimadas e o desmatamento acelerado tem colaborado para o extermínio sistemático de espécies que atuam na polinização. Se não agirmos agora, a nossa geração e as seguintes enfrentarão um cenário histórico de fome e desequilíbrio ambiental como jamais visto.



Riqueza alimentar em risco. Foto: Unsplash.




Alimento é equilíbrio


O que a grande mídia não nos diz e que deveríamos todos aprender nas escolas, em aulas de educação ambiental, os princípios básicos do equilíbrio da vida no planeta. Desconhecemos que quase tudo o que consumimos depende de um ciclo natural inviolável.


A sociedade capitalista de consumo nos vende a falsa ideia de que a comida vem das fábricas, como se tudo o que comemos surgisse magicamente nos supermercados. Não é verdade. Toda a trama da vida é orquestrada magistralmente por esses menosprezados e mal vistos animais que erroneamente chamamos de pragas. Diversas frutas, hortaliças, leguminosas e diferentes espécies vegetais utilizadas para a criação de nossas vestes dependem diretamente da ação desses seres.


O caos alimentar que se aproxima é fruto de uma visão antiética e gananciosa sobre os recursos naturais. Em busca do lucro imediato e da produção massiva de alimentos industrializados, grandes áreas naturais estão sendo dilaceradas para a criação de pastos e monocultura. Essa violência contra o planeta tem um preço. Enquanto vemos mais e mais alimentos ultraprocessados nas prateleiras, vemos reduzir a produção da comida de verdade.


A morte dos animais polinizadores é também a morte da vida humana como conhecemos. Caminhamos assim para um mundo cada vez mais desigual, no qual a diversidade alimentar será um luxo para os milionários.


O preço dessa ruptura será pago por nós, que ainda estamos ofuscados com a mentira de que a tecnologia, com seus robôs e imediatismo, facilitaria nossas vidas. Uma vida mais fácil não é necessariamente uma vida melhor, nem mais justa. Estamos sendo encurralados para um mundo artificial no qual teremos apenas uma opção: conviver com a restrição extrema de bens essenciais para uma vida digna e plena.



Borboletas são fundamentais no processo de polinização. Foto: Unsplash.


O que são os animais polinizadores?


Só podemos compreender o tamanho do problema quando entendermos melhor a importância da polinização.


Dentro do ciclo natural, cada pequena criatura cumpre um papel crucial no equilíbrio da vida no planeta. Na natureza não existe ociosidade, cada ser vivo colabora, a sua maneira, para a manutenção de toda a cadeia vivente. E nesse grande teatro da vida, os polinizadores são os trabalhadores incansáveis que promovem o florescimento tanto da vida vegetal quanto animal.


Os polinizadores são encarregados pela transferência dos grãos de pólen entre as diferentes estruturas das flores. Essa ação é responsável pela formação de frutos e sementes. Diversas espécies vegetais só podem se reproduzir através desse processo.


Segundo a pesquisa promovida pela Embrapa, de 191 plantas cultivadas ou silvestres utilizadas direta ou indiretamente na produção de alimentos no Brasil, 144 (75%) dependem da presença de polinizadores. Num panorama geral, uma em cada três culturas alimentícias do mundo é polinizada por algum animal silvestre.


O desaparecimento das abelhas


As abelhas são conhecidas como as principais polinizadoras do mundo natural, mas na prática esse é um universo muito mais rico. Moscas silvestres, mariposas, borboletas, vespas, besouros, morcegos, pássaros e até pequenos roedores são essenciais dentro desse processo. Sem eles, boa parte de tudo o que a raça humana consome como alimento desaparecerá da Terra.


No caso das abelhas, responsáveis pela polinização massiva de diferentes plantas, o cenário é estarrecedor. Sem elas, não teríamos alimentos como morango, café, amêndoas, mangas, tomates e maçãs, além de uma grande variedade de alimentos essenciais. A cultura do algodão e da soja também serão comprometidas, bem como todos os animais que dependem dessas plantas para se alimentar.


Nas últimas décadas ocorreram desaparecimentos massivos de abelhas em todo o mundo. Os casos mais conhecidos estão nos Estados Unidos e Europa, regiões onde estima-se que um terço de todas as abelhas já tenha desaparecido. E a tragédia começa a se repetir também no Brasil.


Entre 2019 e 2020, só no estado de Minas Gerais, centenas de colmeias morreram sem causa natural aparente. Isso representa, segundo o estudo, mais de 8 milhões de abelhas mortas de uma só vez.


A falta de abelhas desencadeia um efeito em cascata: se não temos abelhas, as plantas não produzem sementes, sem sementes não temos flores, frutas, nem animais que se alimentam dessas espécies. Esse desaparecimento generalizado não ocorre apenas entre as abelhas. Em todo o mundo, diferentes espécies de borboletas, mariposas e besouros estão sendo varridos do mapa.


Um estudo promovido pela União Europeia aponta que a morte em massa de polinizadores é causada principalmente pela mão do homem. Dentre as práticas mais letais, a mais violenta é o uso de agrotóxicos e pesticidas, que envenenam as plantas e o solo e se espalham, através das próprias abelhas, até o interior das colmeias. O desmatamento permanente é outro causador dessa tragédia sem precedentes.


Outro fato assustador é que com menos polinizadores no meio natural, muitas culturas agrícolas passam a produzir de modo imperfeito. Sem esses agentes, muitas frutas e leguminosas nascem sem a correta carga de nutrientes. Ou seja, passamos a comer alimentos com menor valor nutricional. Quando não isso, temos alimentos inadequados ao consumo e que por isso acabam sendo jogados fora.


Num mundo onde a fome é um problema crucial, que só no Brasil atinge mais de 33 milhões de pessoas, é inadmissível permitir que a cadeia alimentar seja destruída em nome do lucro e da ganância de empresas que não respeitam a vida, o nosso bem mais precioso.


Estamos diante de uma catástrofe desencadeada pelo capitalismo, representado aqui pelas grandes companhias que violam sistematicamente o equilíbrio planetário em busca de mais dinheiro. O resultado é uma constante concentração de riqueza nas mãos de poucos e de um cenário de fome e destruição aos demais habitantes do planeta.



Alguns insetos polinizadores. Foto: Relatório da União Europeia.


Como colaborar


O projeto “No bee, no food” (Sem abelhas, sem alimento), é um bom exemplo de colaboração global contra o extermínio dos polinizadores. A ONG promove eventos em todo o mundo sobre a conscientização e o combate a destruição dos habitats dessas espécies.

Você pode conferir mais informações e participar do projeto neste link.


A ONG Sem abelhas, sem alimento recomenda diferentes ações. A principal delas é preferir sempre os alimentos orgânicos e livres de agrotóxicos. Um outro passo importante é cultivar plantas que atraiam os polinizadores. Ter um pequeno jardim caseiro pode ajudar muito a manter vivo o ciclo de polinização.


Outra atitude fundamental é incentivar projetos de preservação e plantio de matas nativas. Aqui em Santa Catarina, participo ativamente da Apremavi, mas outros projetos semelhantes podem ser encontrados em todo o Brasil.


E acima de tudo, informe-se e passe a informação adiante. É através da conscientização e da troca de ideias que deixamos de ser meros espectadores e passamos ao papel de agentes ativos da mudança ambiental que desejamos.



 

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