• Nara Guichon

Um novo sentido para as redes de pesca


Foto: Sandra Alves.


Mais do que nunca se fala sobre o “efeito bola de neve” de todas as nossas ações. Podemos afirmar que o que fazemos localmente gera um impacto local e também global. Não apenas em sentido mental como também em todas as nossas relações e ações cotidianas.


Quando comecei a trabalhar com as redes de pesca não tinha a mínima ideia no que isso daria. Foi um processo intuitivo e orgânico que me levou por caminhos inimagináveis. Essa simples atitude de reusar as redes de pesca causou uma incomensurável transformação em minha profissão, em minha vida, bem como também no mundo ao meu redor, em minha cidade e podemos dizer até que esse simples gesto teve alcance também em termos planetários.


Tudo começou nos idos dos anos 90, quando no ateliê do Henrique Schucman me deparei com as tocantes obras de arte executadas por ele, obras feitas com redes, cordas e demais descartes da indústria pesqueira que Henrique coletava nas praias catarinenses há quase um ano. Fiquei extremamente impressionada e embevecida pela plasticidade e beleza do material.


Trabalho de tapeçaria de Henrique Schucman. Foto: Site Overmundo.


Como já acontecera outras tantas vezes em minha vida, a beleza foi a mola propulsora do início desta jornada, na qual fui abraçando esse material começando a transformá-lo em novas possibilidades, fazendo tecidos artesanais, mantas, tapetes, jogos americanos e outras tantas peças.


Depois disso, tudo evoluiu de modo natural, as redes adentraram o meu trabalho na área da moda e atualmente estão nas minhas obras de arte — peças que vêm com o objetivo revelar as possibilidades desse “lixo" submerso e invisível que assombra e mata impiedosamente a vida marítima.



Foto: Renata Gordo.


As grandes medidas e os volumes significativos das peças de arte não são por acaso. Essa volumetria chamativa é uma forma de representar o tamanho do lixo oceânico, uma alusão ao fato de que se esses resíduos podem crescer ad infinitum, o mesmo pode ocorrer com as peças. Trata-se de uma ligação poética entre dois conceitos diferentes, mas que se comunicam diretamente dentro do meu modo de trabalho.


O que aprendi ao longo desses anos é que as redes possuem sua nobreza, um descarte que possui infinitas possibilidades, soluções que transformam algo considerado lixo, dando as redes um novo significado. O simples gesto de reusar as redes levou-me a transformar algo tão negativo em objetos utilitários e arte.


Precisamos de mais pessoas, cientistas, artesãos e designers focados na transformação, pessoas dispostas a encontrar soluções plausíveis para esse e tantos outros tipos de descartes de nobres materiais comumente e erroneamente chamados de lixo.

Um dano sem tamanho

Aqui estamos falando de uma tragédia, que em termos ambientais causa um estrago incalculável. Além das espécies marinhas que morrem presas nessas fibras, a poliamida, material que compõe as redes, é extremamente resistente, o que representa uma poluição que pode perdurar por séculos nos biomas.


Estima-se que cerca de 640 mil toneladas ao ano de redes são lançadas ao mar e carregadas através dos oceanos pela força das marés.


A chamada “pesca fantasma” aniquila de maneira cruel milhões de animais marinhos todos os anos: tartarugas, focas, leões marinhos, golfinhos, tubarões e centenas de espécies de peixes e crustáceos. Quando a morte não se dá por prisão (o animal prende-se na rede e fica impossibilitado de se locomover ou se alimentar), ela ocorre por ingestão dos fragmentos das redes. As redes de pesca também se emaranham em corais causando o sufocamento desses seres que são vitais para o equilíbrio da fauna dos mares.


Esse é um problema tão complexo e urgente que nos assusta e nos leva a crer que nada mais poderá ser feito. Mas como venho dizendo aqui, confio na lógica de que todos nós podemos fazer a diferença – e o meu trabalho com as redes de pesca é a prova de que esse pensamento é verdadeiro.


O que para muita gente era apenas trapos e resíduos sem importância, para mim passou a ser um elemento de transformação. Apesar de sua força destrutiva, as redes de pesca possuem beleza, utilidade e uma forte simbologia. A rede é aquilo que conecta, mas também pode ser o que sufoca. A diferença estará sempre no uso que damos, em nossa forma de ver o mundo.



Foto: Renata Gordo.

Uma ideia que se espalha

Acredito que uma boa ideia é sempre maior do que a mente que a concebeu. Boas ideias flutuam no ar, navegam de uma mente a outra e se tornam conceitos amplos. Atraem mais gente e ganham novos contornos.


Assim aconteceu com a ideia de reuso das redes. De 1998 para cá, é notável o número de projetos que têm as redes de pesca como matéria-prima.


No Brasil, diversas iniciativas passaram a olhar esse material com outros olhos. A Federação Internacional de Voleibol criou uma iniciativa muito original que transforma as redes de pesca em redes para aulas de vôlei no Rio de Janeiro. No Rio Grande do Sul, o projeto Redeiras também encontrou nas redes a fonte para seus produtos.


A transformação chegou também a diversos países. Na Europa, um projeto utiliza as redes como matéria-prima para a criação de móveis e peças de decoração. Na Espanha o projeto Marnet (junção das palavras “mar” e “net”, rede em inglês) transforma as fibras de poliamida em um novo tipo de tecido usado em roupas, calçados e afins. Na Eslovênia, uma empresa se especializou na reciclagem total deste material, ato até então inédito.



Tapete "Águas Limpas". Peça selecionada pelo Museu da Casa Brasileira em sua premiação de 2021. Foto: Renata Gordo.

É importante saber que todos nós podemos fazer parte desta mudança. Se de um lado temos artesãos, empresas e projetos que visam reduzir o impacto destrutivo das redes de pesca nos oceanos, do outro os cidadãos comuns podem e devem colaborar mudando sua forma de consumo.


Incentive os artesãos, valorize os trabalhos artesanais. Um gesto simples como trocar a sua esponja tradicional por uma feita de rede de pesca, que tem vida útil de cerca de 5 anos, já significa muito para o todo.


Opte por sacolas retornáveis e outros produtos criados com redes de pesca e o mais importante: compartilhe essa ideia com outras pessoas, passe o conceito adiante. Só assim podemos criar uma rede do bem, unindo pessoas em busca de profundas e significativas soluções que impactarão positivamente em todos os oceanos e em todas as formas de vida.



 

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