• Nara Guichon

A importância do artesanato para uma sociedade mais justa

Atualizado: 26 de out. de 2021




Segundo o dicionário Michaelis, a palavra “artesanato” pode ser definida como:

“Arte e técnica do trabalho manual realizado por um artesão; método de trabalho do artesão que alia utilitarismo à arte.”

Essa definição é muito elucidativa para entender a importância da criação artesanal atualmente. O artesão é alguém que combina “o utilitarismo”, ou seja, a utilidade, serventia e usabilidade, com a “arte” – o sublime, o belo, o emocional. Compreender a importância deste ofício é aprender sobre a dinâmica de uma cultura, especialmente a cultura brasileira, em toda sua complexidade e beleza.


Segundo a pesquisadora e curadora Adélia Borges, o brasileiro ainda enxerga o produto artesanal como algo rude, primitivo e pouco complexo. Segundo ela:


“A única coisa primitiva sobre nosso artesanato é o nosso conhecimento a respeito dele.”

Se por um lado temos uma desvalorização do fazer artesanal, por outro vivemos uma expansão das técnicas, modelos, estilos e materiais. A variedade de trabalhos e artesãos dedicados à sua arte, ajuda a manter essa forma de expressão em seu lugar de destaque como modificadora da sociedade.




Peças do Ateliê Nara Guichon. Fotos: Nelson Wilbert.


Esse fazer manual pode ser visto como um benefício social múltiplo. Ele é fonte de renda, meio de expressão e preservação das culturas locais, modelo de valorização de pessoas e comunidades, estilo de vida, alternativa sustentável de consumo, dentre outros. Esta atividade também é altamente benéfica em termos como meio de socialização. O criar com as próprias mãos estimula o intelecto e facilita a empatia entre as pessoas.


O artesanato no Brasil


Apontar uma história do artesanato no Brasil é uma tarefa quase impossível, dada a sua complexidade e riqueza. Ela se confunde com a própria história da civilização ameríndia e remonta aos primeiros habitantes de nosso território, isso há pelo menos 6 mil anos. As primeiras peças criadas pelos nativos combinavam elegantemente diversas técnicas de pintura, cerâmica, cestaria e tecelagem.


Os elementos naturais como folhas, sementes, cascas, colorantes naturais, plumas e penas de aves sempre foram inspiração para as peças artesanais ancestrais brasileiras. Isso contraria a ideia eurocêntrica de que os nossos índios não produziram nada de notável no campo das artes.


No Brasil, bem mais do que em outros países, temos uma curiosa e relevante relação entre artesanato e folclore. Muitas manifestações culturais típicas do interior do Brasil possuem o artesanato como parte de suas tradições. Desta forma, os objetos criados são manifestações físicas de conceitos artísticos, religiosos ou sociais. Podemos dizer, sem sombra de dúvidas, que o artesanato brasileiro é um dos mais ricos e criativos do mundo, exportado para o mundo inteiro.

Foto: Artesanato do Vale do Jequitinhonha. Fonte: Divulgação / Hoje em Dia.

Na Europa e Estados Unidos, as peças brasileiras são destaque em exposições, feiras e casas especializadas. As bonecas de barro do Vale do Jequitinhonha são famosas na Itália, Suécia e Espanha. O artesanato em madeira, típico do Ceará, já conquistou o gosto dos designers alemães. A arte tradicional do Piauí é uma das mais procuradas nos EUA.


O reuso das redes de pesca do projeto Águas Limpas conquistou, em 2018, a menção honrosa na Bienal Ibero-Americana, em Madrid. Esses são apenas alguns exemplos de como o nosso trabalho artesanal é relevante e internacionalmente reconhecido.

O artesanato de Marcos Sertânia é um dos mais famosos na Europa. Fonte: Divulgação.

A importância do mestre artesão


A ideia de que o produto do artesanato é algo de menor prestígio quando comparado a um artigo de massa nasceu ainda na Revolução Industrial. Com a criação das grandes fábricas, os mestres que criavam peças únicas e sob medida foram classificados como ultrapassados.

Nara Guichon. Fotos: Christine Rath.

A campanha global pela venda de produtos industriais acabou por criar o tabu de que o produto feito manualmente teria menos valor. Desta maneira, reconhecer a importância do artesanato é perceber que o mesmo perpetua uma forma única de expressão regional. Ao contrário da indústria, que massifica, padroniza e investe apenas em quantidade, o ofício do mestre artesão é feito de dedicação plena, originalidade e qualidade.


Para se tornar um mestre artesão é preciso bem mais do que saber fazer peças, é preciso entendê-las, dialogar com as matérias primas, compreender a linguagem das coisas e buscar sempre uma forma de expressão que fale diretamente ao público.

Nara Guichon. Fotos: Christine Rath.

Artesanato e sustentabilidade


Acredito que o artesanato deveria ser visto como sinônimo de orgulho, tanto para quem cria quanto para quem adquire as peças. O ato de fazer algo com as mãos nos conecta a uma ancestralidade quase perdida, que nos aproxima de nossas raízes.


Cada peça criada pelo artesão é única ou feitas em pequenas séries. Seus detalhes refletem uma história local e possuem beleza e praticidade que não podem ser encontrados nos produtos industrializados.


Atualmente, é importante salientar a relação do artesanato com as questões ambientais, pois em tempos de recursos naturais cada vez menos disponíveis, vemos que alguns dos melhores e mais originais trabalhos artesanais são feitos com reuso ou reciclagem de materiais.


Aquilo que para muitas pessoas não possui mais valor, nas mãos do artesão se transforma em beleza, utilidade e consciência ambiental. Peças criadas de modo sustentável são uma ótima maneira de contribuir com um mundo mais justo e menos degradado.

Outro fator relevante é estimular o artesanato local. Em nosso país, milhares de famílias vivem da renda provinda do trabalho artesanal. Ao adquirir peças criadas regionalmente, você estará colaborando com o fortalecimento de uma economia mais justa, gerando sustento e dignidade. Promovendo formas únicas de expressão a esses cidadãos que merecem o respeito de todos.


Recomendação de leitura:


Para quem desejar saber mais sobre o artesanato brasileiro, recomendo a leitura da entrevista da pesquisadora Adélia Borges na revista Além das Asas.

 

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