• Nara Guichon

Ativismo ambiental: mulheres que estão fazendo a diferença

Significativas mudanças em prol da vida já se tornaram notícias corriqueiras nos meios de comunicação. As mulheres, após centenas de anos de opressão, manifestam-se cada vez mais em vários âmbitos.


Suas vozes ecoam em todos os pontos do planeta, trazendo-nos esperança de um mundo mais justo, onde a vida seja tratada com respeito. Isso será possível através de iniciativas de ativistas sensíveis, guerreiras e com indubitável vontade de um mundo mais igualitário para todos nós.


O número de mulheres ativistas, líderes em todos os continentes, é bastante significativo. Falaremos aqui de apenas uma pequena parcela. O universo das ativistas é muito mais vasto e rico.


Os exemplo citados são de cidadãs que, certa maneira, representam um movimento coletivo. Pessoas que, incansavelmente, se dedicam a um trabalho solitário, mas capaz de tomar proporções gigantes. São exemplos que nos mostram a possibilidade de um mundo mais justo.



Vandana Shiva


A ativista, física e pesquisadora Vandana Shiva é uma das mulheres mais notáveis do cenário de consciência social e representante do ecofeminismo, movimento que visa a igualdade entre gêneros e maior visão política do meio ambiente. Membro do Fórum Internacional sobre Globalização, sua participação em diversas causas ecológicas é baseada na ancestral cultura védica indiana.


Nascida em 1952 no interior da Índia, obteve o bacharelado e mestrado em ciência, além de um mestrado complementar em filosofia da física. Sua formação, majoritariamente no campo científico, lhe proporcionou uma visão crítica da lógica racionalista do capitalismo global. Suas pesquisas no ramo de biotecnologia e bioética são reveladoras sobre questões como esgotamento de recursos naturais, o impacto da indústria na vida das populações pobres e subemprego.


Vandana tem colaborado ativamente com o Movimento Verde, que atua especialmente na África, Ásia e América Latina, estimulando a pesquisa no setor da agricultura familiar e engenharia genética. É autora de diversos livros sobre o dilema da fome e a relação entre escassez de alimentos, desperdício e manipulação da indústria.


Em outubro de 2018 ela falou, numa entrevista reveladora, sobre os perigos dos agrotóxicos no Brasil.


Segundo a ativista:

“Agrotóxicos não são necessários para produzir mais comida, meu movimento na Índia tem demonstrado que é possível alimentar duas vezes a população indiana sem venenos, enquanto protegemos o planeta, os polinizadores, a biodiversidade, e também curamos o solo e a vida de todas as abelhas.”




Greta Thunberg


A sueca Greta Thunberg é a mais jovem e uma das mais notáveis líderes do movimento ecológico mundial. Com apenas 16 anos, ela recebeu recentemente uma indicação ao Nobel da Paz por sua luta incansável contra as políticas predatórias ao meio ambiente.


O trabalho de Greta começou de maneira muito simples. Todas as sextas-feiras, Greta e alguns amigos apareciam na frente do parlamento sueco, o Riksdagshuset, com cartazes em prol de ações públicas mais justas e maior consciência ecológica.


O movimento, iniciado em agosto de 2018, foi batizado de “Fridays for future” e acabou dando origem a uma mobilização social ainda maior, o “Skolstrejk för klimatet”, ou “Greve escolar pelo clima”.

Logo, milhares de jovens suecos e de outros países europeus aderiram à causa, tornando o ideal solitário de Greta num evento que sacudiu a Europa. Em 15 de março desse ano, o movimento tomou proporções globais, mobilizando mais de um milhão de pessoas em mais de 2.200 cidades. Há uma nova paralisação global marcada para 29 de setembro de 2019. Desta vez, Greta terá o apoio de celebridades, cientistas e líderes políticos que já declararam a presença no evento.


Greta é um exemplo de como uma ação individual e aparentemente pequena, pode tomar proporções gigantescas e ajudar a inspirar milhões de pessoas. Seu ativismo, eloquente e eficaz, é baseado na resistência pacífica e na cobrança por um mundo mais justo e na valorização dos recursos naturais.


Numa entrevista ao canal BBC, Greta conta como a educação foi decisiva para o seu posicionamento ambiental:


“Quando eu era pequena, tinha planos de ser várias coisas, de atriz a cientista. Até que meus professores me falaram na escola sobre a mudança climática. Isso abriu meus olhos.”




Isatou Ceesay


Nascida no Gâmbia, em 1972, Isatou Ceesay é um exemplo de liderança em prol da equidade social e contra a destruição dos recursos naturais. Conhecida como “a rainha da reciclagem na África”, ela criou em 1997 uma pequena associação para catadoras de materiais plásticos. O projeto, iniciado localmente, cresceu e ganhou destaque mundial. O Njau Recycling and Income Generation, partiu de uma ideia simples: todos os finais de semana um grupo de mulheres locais percorria os bairros e feiras alertando para a correta destinação do lixo.


Segundo Isatou, desde pequena ela estava acostumada a ver pessoas jogando dejetos em riachos ou lotes abandonados. A parte mais difícil de seu trabalho foi mudar a visão das pessoas sobre o lixo. Em sua comunidade, era comum que as mulheres usassem pedaços de plásticos para acender os fornos caseiros. O resultado era uma alta taxa de doenças respiratórias, além de outros problemas graves de saúde.


O trabalho de Isatou é um exemplo de como o ativismo ambiental caminha lado a lado de uma política de justiça social. O ponto de transformação de sua comunidade foi quando ela teve a ideia de transformar o lixo em algo valioso e útil. O grupo de mulheres liderado por ela cria bolsas, tapetes e acessórios feitos com o plástico retirado dos lixões e depósitos.


A renda obtida ajuda as mulheres a atingirem sua independência financeira e reduz o impacto ambiental. Atualmente o projeto atinge indiretamente 11 mil pessoas. Em se tratando de um país onde 75% da população não têm acesso à educação, aprender um ofício representa uma chance real de mudança de vida. As peças criadas pelo projeto de Isatou se tornaram referência para diversos designs e seu modelo de sustentabilidade social passou a ser copiado em vários países.


Maria do Socorro Silva


A brasileira Maria do Socorro Silva foi eleita pelo jornal inglês The Guardian uma dos nove ativistas mais relevantes da atualidade. Líder quilombola no interior do Pará, seu trabalho é um dos mais arriscados do mundo. O Estado é um dos que mais matam ativistas ambientais em todo o planeta e considerado território de atenção pelos analistas ecológicos. Só em 2017 foram 207 pessoas assassinadas.


A causa de Maria do Socorro é muito nobre. Ao longo de mais de 10 anos ela tem atuado contra a poluição massiva das indústrias de alumínio em sua região. Além de promoverem a destruição de todo o ecossistema regional, as empresas precarizam a mão de obra, gerando um ciclo de pobreza, degradação ambiental e desrespeito.


Outra causa em que a ativista tem se empenhado é contra a grilagem, prática comum na região. Investidores, mineradores e políticos expulsam pequenos agricultores e comunidades de suas terras, visando a formação de latifúndios para exploração mineral ou criação de gado. O resultado é devastador. Morre a tradição cultural, famílias são jogadas na miséria e a natureza é destruída em sua totalidade.


Seu trabalho ganhou destaque mundial por seu esforço quase solitário, que caminha na direção contrária também do racismo exercido contra os povos quilombolas e ribeirinhos.


Tuğba Günal


Tuğba Günal e seu marido, Birhan Erkutlu, se mudaram dos arredores de Istambul em 2004 e construíram uma casa no Vale de Alakir, numa área verde no interior da Turquia. A ideia era viver um ritmo de vida mais perto da natureza, longe do consumismo e mais conectado aos ideais ecológicos.


A vida dos dois ia bem até o dia em que acordaram com o som das motosserras. Uma das companhias de energia do país estava abrindo caminho no meio da floresta nativa para a construção de uma barragem. A história de ativismo de Tuğba e seu companheiro é baseada na necessidade urgente de ação. Diante da desapropriação, eles poderiam aceitar o valor pago pela companhia e buscar um novo casebre. Mas o casal estava envolvido com a vida local, valorizavam o cultivo orgânico, o ciclo natural das espécies nativas e estimulavam o plantio de novas árvores.


Tuğba e Birhan abandonaram momentaneamente a ideia de uma vida isolada e pediram aos amigos e parentes ajuda para barrar o avanço do desmatamento do parque. O efeito foi maior que esperado, provocando uma mobilização nacional sem precedentes. Apesar do projeto de construção da hidrelétrica ainda estar em andamento, o governo turco foi pressionado a criar uma área de proteção ambiental.


A luta de Tuğba Günal e Birhan Erkutlu é ainda mais significativa quando percebemos o contexto. A Turquia passou a reprimir violentamente os protestos a favor do clima. Ativistas e divulgadores começaram a ser presos e o país se tornou perigoso para os que defendem o meio ambiente. Em depoimento ao The Guardian, Tuğba disse:


“Não percebemos isso de imediato, mas essa é uma questão global. Se você deseja proteger o meio ambiente é tratado como um terrorista.”



Miriam Prochnow


Nascida no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, Miriam Prochnow é uma das mulheres mais ativa nas causas ambientais brasileiras. Seu interesse pela preservação da floresta nativa levou-a a fundar, com o marido Wigold Schäffer, a Apremavi – Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida. Atualmente a instituição é reconhecida internacionalmente por sua luta para a preservação e recuperação da Mata Atlântica local.


Ativista incansável, conscientizou centenas de agricultores que a mata é mais valiosa e detentora da vida. Instaurou práticas de produção de alimentos orgânicos entre aricultores, que sofriam todos os revezes advindos de práticas de agricultura com agrotóxicos. Atuando nas escolas públicas da região, sensibilizou educadores e alunos sobre o papel social de cada um.


Ao longo de 32 anos anos a Apremavi já plantou, no estado de Santa Catarina, cerca de 8 milhões de árvores nativas da Mata Atlântica.

Graças ao seu trabalho foram desenvolvidos diversos projetos e políticas públicas de combate ao desmatamento na região, especialmente a Federação de Entidades Ecologistas Catarinenses, criada em 1988. A atuação de Miriam colaborou ainda para o desenvolvimento do Decreto 750/1993, pioneiro em determinar, pela primeira vez, a proteção e o correto uso sustentável da Mata Atlântica.


Em 2013 foi inaugurada na cidade de Atalanta a nova sede de Apremavi. A instituição se tornou referência no cultivo de mudas de árvores nativas contra as mudanças climáticas.


 

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