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  • Nara Guichon

O verdadeiro sentido da palavra vestir

Uma reflexão sobre a moda e o consumismo desenfreado




Vestir é uma arte sagrada. Em todas as antigas civilizações, o que se trazia sobre o corpo tinha um sentido. O manto sagrado das sacerdotisas gregas, o uncu, túnica de fibras naturais usada pelos chefes incas, a capa romana, os cocares dos povos originais da América. Em cada veste encontramos a marca da cultura de um povo, seus valores e crenças, suas cores e formas.


A proteção que usamos sobre o corpo é uma ideia extraída da natureza. A raça humana, por sua fragilidade física, teve de aprender com os animais os modos de preservar o calor corporal e de se proteger contra as intempéries.


Primeiramente o homem cobriu-se com a pele dos animais que caçava para proteger-se do frio implacável, lentamente foi desenvolvendo técnicas para vestir-se com conforto. Inicialmente o couro destes animais era mastigado para tornar-se mais moldável. A ovelha foi o primeiro animal domesticado para a criação de vestimentas, tendo a lã como matéria prima.


Cardar, fiar, tecer e costurar advindos dessa prática, antes de qualquer coisa, são gestos de proteção, acolhimento e afeto tão essenciais quanto se alimentar.



Xale estampado com técnica de Ecoprint. Exemplo de simplicidade, elegância e respeito ao planeta.


O capitalismo apagou de nosso cotidiano quase todo traço de verdade sobre a arte de vestir. Não trajamos mais o que se comunica com nossa essência, mas apenas o que a moda nos diz ser belo e necessário. Ora, a beleza, como bem sabemos, é particular e singular. Cada pessoa deveria ter liberdade para vestir-se de acordo com seus princípios pessoais.


É fundamental mudarmos o nosso olhar sobre o ato de vestir.


Precisamos resgatar nossas origens e fazer da vestimenta algo maior que efêmero prazer consumista.


A moda de cada um


Muito se confunde elegância com luxo. A verdadeira elegância mora na simplicidade. Há elegância nas roupas antigas que usamos por prazer, nos sapatos remendados, nos bolsos reforçados, nos xales tricotados com devoção, nos casacos que foram de nossas tias, de nossas avós. Há uma elegância eterna e sólida na roupa feita para durar, aquela que não depende de modismo nem de marcas famosas.


Temos que refletir sobre o marketing enganoso que impera e estar conscientes de que cabe a nós mesmos a opção por aquilo que é bom de verdade. Ao vestir roupas customizadas e assinadas por nós mesmos, ou ainda peças de pequenas produções artesanais, estaremos revolucionando a impiedosa indústria da moda.


Há uma frase da célebre estilista francesa Coco Chanel que resume bem essa verdade:


“A elegância não se resume a colocar um vestido novo.”

Num mundo de modismos descartáveis e destruição ambiental causada pelo consumismo, a elegância não deveria ser definida por um guarda-roupas repleto de novidades. A qualidade jamais deveria ceder lugar à quantidade. Cada peça de roupa deveria ser única e atemporal.



Detalhe da lã natural sendo fiada. Foto: Renata Gordo.


Houve um tempo em que cada peça em nosso armário tinha uma função. Os sapatos para ir ao colégio, o vestido de passeio, o único casaco que, saia ano, adentrava ano, era sempre o mesmo que aquecia quando o inverno chegava.


Não éramos taxados disso ou daquilo por causa de nossas vestimentas. Vestir era contar histórias. dando significado ao que trazíamos conosco.


As roupas feitas para o descarte a cada troca de estação arrastam consigo uma destruição impiedosa, além da injustiça social e pasteurização do gosto comum. Não faz muito tempo que comprar uma roupa ou acessório novo era um momento único. Podia não ser barato, afinal nenhuma roupa de qualidade é, mas sabíamos que esse gesto era uma espécie de investimento.


Sentir o toque de um tecido novo, apreciar as tramas de um bordado ou tricô, escolher uma linda estampa desenvolvida em pequenas coleções. Esses prazeres estéticos tão valorosos ao nosso espírito estão se perdendo em nome da falsa alegria de ter mais uma roupa da moda.


Afirmo que a moda não é exatamente o que a indústria capitalista nos diz. Moda não é só comprar mais e mais, é respeitar o seu gosto pessoal, é respeitar o trabalho das pessoas, é ter consciência social e ambiental. Moda é saber de onde sua roupa vem e para onde ela vai, tendo em mente que ela deve ser feita sempre com o propósito de ser durável, bela, justa e igualitária.


Se a sua roupa não dura, não promove justiça social e não respeita o planeta em que vivemos, sinto muito, mas ao entrar nesse jogo capitalista onde todos estão perdendo, estamos apenas alimentando o nosso inimigo.


Nosso corpo é o bem mais precioso que a natureza nos deu. Não devíamos colocar sobre ele nada que não fosse respeitoso.


Precisamos mudar nossos hábitos e valorizar aquilo que tem verdadeira qualidade.


Precisamos abandonar o desejo capitalista, perverso e injusto, e aprender o valor das "pequenas coisas". A roupa feita à mão, a lã fiada pacientemente, o algodão natural, o linho, a seda.


Essas são dádivas que a cultura humana e a natureza nos deram e que precisam ser resgatadas antes que nos esqueçamos por completo do verdadeiro sentido da expressão “vestir com respeito”.



 

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