• Nara Guichon

Conheça mais sobre as fibras naturais: cânhamo

Atualizado: 26 de out. de 2021



O cânhamo, conhecido cientificamente como Cannabis ruderalis, é uma planta originária da Ásia da qual se extrai a fibra de mesmo nome. É uma variação da Cannabis sativa, popularmente conhecida como maconha.


Por sua vez, o cânhamo é cultivado em todo o mundo e sua fibra é reconhecidamente uma das mais importantes do universo têxtil. Esta planta pode ser usada ainda na confecção de tecidos, lonas, cordas, papel, além de óleos, essências e resinas.


Sua principal fibra, o filame, é famosa por sua resistência e alta produtividade. Um hectare de cânhamo produz a mesma quantidade de fibra vegetal que quatro hectares de eucalipto e com menor impacto ambiental.


O óleo de semente de cânhamo é muito usado para a composição de cremes hidratantes, xampus naturais e esfoliantes. Pode ser ainda empregado em diversos alimentos e possui altos níveis de nutrientes, especialmente ômega 3 e diversas proteínas. In natura, a semente da planta pode ser usada como complemento alimentar em sobremesas, iogurtes, sopas e vitaminas.


A China atualmente é o país líder na produção do cânhamo, seguido pela França.

Plantação de cânhamo. Fonte: Shifter.sapo

Uma breve história do cânhamo


Acredita-se que o cultivo do cânhamo se iniciou na região ao norte do Afeganistão, sendo considerada uma das primeiras plantas domesticadas pelo homem para fins não alimentícios.


Ela se tornou parte da rotina humana durante o período pós-neolítico, por volta de nada menos que 7 mil anos antes de Cristo. Na Antiga China serviu como moeda de troca e alimentou diversas revoluções sociais e econômicas


O cânhamo possui grande importância na história da globalização e do mercado entre nações. No Antigo Oriente ele se tornou o principal material na composição de cordas, redes de pesca e velas. Resistente, flexível e versátil, este filamento contribuiu para que diversos povos explorassem os mares e expandissem seus impérios.


Os Citas, cultura que habitava a região do atual Irã, davam à fibra lugar de destaque utilizando-a como tributo aos mortos.


Logo as cordas navais feitas com a planta se tornaram populares e foram introduzidas no mundo ocidental pelos gregos em 200 antes de Cristo. Desde então a erva passou a ser cultivada pelos principais impérios: persa, romano, inglês e espanhol.


Na Era Medieval o cânhamo ajudou na expansão do reino mouro na Península Ibérica. Muitas cidades portuguesas e espanholas foram fundadas em torno de suas plantações.

Podemos dizer que esta fibra é uma das coadjuvantes mais importantes do período das grandes navegações. O cânhamo era usado em praticamente todas as partes de um navio, desde as velas, cordas e redes, até na junção das madeiras, feitas com uma cola à base do óleo da planta. Os marinheiros também usavam roupas e sapatos feitos com a fibra, pois eram mais resistentes à maresia e ao sol.


Outra prova de sua importância é o fato de que Cristóvão Colombo trouxe, nas naus que aportaram na América, dezenas de toneladas de artigos feitos em cânhamo para garantir sua viagem de volta.


Filamento do cânhamo. Fonte: Wikipédia.



Cordas feitas de cânhamo. Fonte: Hemp Site.


Cadeira feita com fibra de cânhamo. Fonte: Hemp Site.

Algumas curiosidades sobre o cânhamo


Pouca gente sabe, mas a primeira bandeira dos Estados Unidos foi feita de cânhamo. Atualmente o país vive uma grande pressão popular pela legalização nacional do uso da maconha, e esse fato histórico, e peculiar, se tornou símbolo dos defensores da planta.


Outro fato curioso é que um dos diversos motivos que levaram Napoleão Bonaparte a tentar invadir a Rússia foram as plantações de cânhamo naquele país. A fibra era parte crucial na expansão marítima e os países que detinham o seu cultivo geralmente eram potenciais temidas


Apesar de ser uma variedade da Cannabis sativa o cânhamo não é cultivado para a obtenção de flores e tricomas, que possuem os compostos cannabinóides, dentre eles o THC.


Por possuir baixas dosagens dessas substâncias, a planta é muito mais lucrativa enquanto fibra do que entorpecente. Mesmo assim, o cultivo do cânhamo não é permitido em diversos países, inclusive o Brasil.


Durante séculos o papel era criado exclusivamente com as fibras de cânhamo. A revolução cultural, iniciada com a criação da prensa de Gutemberg, teve seus primeiros livros criados com essa fibra.


Os grandes pintores, de meados do século XVII até o século XIX, usavam apenas telas feitas à base de cânhamo. A própria palavra “canvas”, que significa tela para pinturas, é uma corruptela do termo em latim “cannabis”.


Boa parte do tabu e proibição do uso da maconha nasceu durante a Revolução Industrial, que via no cânhamo um sério concorrente contra as fibras industriais e sintéticas.


Com a popularização do plástico, o cânhamo passou por um processo ainda mais severo de criminalização e foi quase totalmente banido. Isso mostra como a nossa percepção social pode ser influenciada diretamente pelo o que a indústria dita como permitido ou proibido.

O ativista e pesquisador Jack Herer, em seu livro The Emperor Wears No Clothes, ressalta a manipulação da indústria sobre a comercialização de fibras naturais.


Nos anos 20 a Dupont, gigante têxtil mundial, introduziu diversas classes de nylon e poliéster no mercado global. O produto, feito à base de petróleo, tinha apenas um grande concorrente no mercado: o cânhamo. Com isso a Dupont, juntamente com outras empresas do ramo, se emprenhou em criar uma campanha de marketing massivo contra todas as plantas Cannabis, o que levou a proibição da maconha e a uma mistificação negativa de suas fibras.

Plantação de cânhamo no Rio de Janeiro no século XIX. Fonte: Massive Search.

Cânhamo no Brasil


Em Portugal o cânhamo começou a ser cultivado em meados do século XIV e foi peça-chave durante a época das grandes navegações.


No Brasil a primeira iniciativa de cultivo da planta data de meados do século XVIII com a Real Feitoria do Linho Cânhamo no Brasil. Dos anos de 1747 a 1824 Portugal investiu na produção desta planta, vista como um bem de extrema necessidade para o bom fluxo comercial além mar. As primeiras plantações foram no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Pernambuco. Posteriormente Rio de Janeiro e São Paulo também tiveram grandes plantações, hoje totalmente extintas.


Um tecido com várias possibilidades


O cânhamo é conhecido por sua versatilidade, toque agradável e incrível durabilidade. As peças feitas com este filamento podem durar décadas. Ele pode ser utilizado em diversos produtos como calçados, roupas, bolsas, acessórios, chapéus, peças de decoração e design, móveis e estofados.


Até 4 vezes mais resistentes que o algodão, suas fibras são muito versáteis. Quando processadas da maneira correta, podem ser utilizadas na confecção de roupas com uma textura única e ótima absorção de cores. Em forma de tecido o cânhamo apresenta ainda excelente bloqueio aos raios ultravioletas e oferece ao usuário eficiente termodinâmica.

Trata-se de uma fibra com grande potencial para cultivo orgânico e que deveria ser mais utilizada. O desenvolvimento da planta não necessita de aditivos químicos ou pesticidas.


O cânhamo se comporta na natureza como uma erva daninha, ou seja, cresce em praticamente qualquer lugar e com rapidez. Seu cultivo reduz o uso de água em até 90% quando comparado ao cultivo de algodão.


Os produtos feitos com cânhamo no Brasil são criados com matéria prima vinda da França, China ou Estados Unidos. Apesar do cultivo ser proibido por aqui, a manufatura da fibra é totalmente legal, mas ainda pouco explorada comercialmente.


O seu consumo é recomendado dado o baixo impacto ambiental. Diversas empresas europeias e americanas oferecem artigos feitos com cânhamo orgânico, que podem ser adquiridos pela internet.

 

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