• Nara Guichon

Economia Circular: um novo modo consciente de criação e consumo


ONG Save The Ocean. Foto: Unsplash.


Um dos maiores desafios para a nossa e as próximas gerações é o correto uso dos recursos naturais.


A cultura do “fazer, usar e jogar fora” atualmente está se tornando obsoleta e eticamente questionável. Nascem novas ideias e conceitos que pretendem mudar a forma como compramos, usamos e reutilizamos nossos bens e produtos. Uma dessas novas formas de consciência ambiental é a Economia Circular.


O que é Economia Circular?


Segundo o site Eco.nomia, focado na divulgação e popularização do conceito, Economia Circular é:

“...um conceito estratégico que se assenta na redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais e energia. (…) Materializa-se na minimização da extração de recursos, maximização da reutilização, aumento da eficiência e desenvolvimento de novos modelos de negócios.”

Já a Comissão do Parlamento Europeu define a Economia Circular como:

“A Economia Circular mantém o valor acrescentado nos produtos pelo maior tempo possível e elimina o desperdício.”

De modo objetivo a Economia Circular é uma forma de criação e venda de produtos onde cada item vendido não é simplesmente descartado após o uso. Cada elemento usado retorna para o ciclo de reutilização, sendo transformado em matéria prima para outros produtos reciclados. Ou seja, neste modelo econômico temos menos uso dos recursos naturais e mais valorização do processo de reutilização e reciclagem.

Ciclo básico da Economia Circular. Fonte: Portugal 2020.

Economia Circular x Economia Linear


No modelo tradicional de consumo, a chamada Economia Linear, os produtos seguem a lógica da extração, produção e eliminação. O caminho é feito apenas em linha reta, sem a devida conscientização da importância da boa gerência dos recursos naturais.

Todo o processo de criação visa apenas satisfazer a demanda crescente do mercado por mais e mais produtos, sem pensar nas consequências desta prática.

A lógica da Economia Linear. Fonte: Ideia Circular.


Já na Economia Circular temos o conceito de que o consumo poderá acontecer dentro de ciclos completos de uso, reutilização, criação, novo uso e assim por diante. Desta forma todo criador de artigos é responsável pelo destino de seus produtos, da concepção até o descarte.


O mesmo acontece com o consumidor, que deve adotar uma nova postura de compra e uso:

  1. O consumidor deve desenvolver senso crítico para escolher melhor os seus produtos, levando sempre em conta atributos como durabilidade (para evitar a compra recorrente), funcionalidade (para evitar a compra por impulso) e design inteligente (para garantir que o produto será corretamente destinado ao fim do uso).

  2. O consumidor deve desenvolver consciência socioambiental para garantir que o produto, ao final do ciclo de uso, será devidamente reaproveitado ou reciclado. Nesta etapa o consumidor é responsável pela correta destinação do produto quando este não estiver mais em condições de ser utilizado.


Valorização da cultura e elementos locais


A Economia Circular não é apenas um movimento macro, mas fundamentalmente micro. Ou seja, parte das pequenas ações locais para mudanças globais. Uma das características da Economia Circular é valorizar o consumo de produtos locais. Desta forma produtores, artesãos e demais criadores de matéria prima local são fundamentais para evitar o consumo de artigos não-locais, o que aumenta consideravelmente o impacto ambiental causado pelo transporte movido basicamente a combustíveis fósseis.

A valorização dos produtos locais e sazonais é também uma forma de estimular a microeconomia, a agroeconomia familiar e o artesanato. Desta maneira estamos criando oportunidades de trabalho e renda para os grupos sociais que mais precisam e não apenas para os líderes da grande indústria.


Os 5 R’s da Economia Circular


A Economia Circular é baseada no menor desperdício possível de recursos, o que significa que ela pode ser aplicada desde as grandes empresas até as ações de cidadãos comuns. Seus princípios são:

  1. Repensar: é fundamental criar novas formas de lidar com o consumo e com tudo o que temos ao nosso redor. Cada utensílio em nossa casa, por menor que seja, representa um preço em termos de pegada ambiental.

  2. Reduzir: consumir menos, produzir menos, exigir menos do planeta. Essa é a linha central do pensamento econômico circular. Quanto menos consumimos, mais seletivos nos tornamos e mais justamente agimos com o nosso planeta.

  3. Recusar: a Economia Circular é uma economia para quem aprende a dizer não. Não ao consumo exagerado, não aos produtos criados sem consciência socioambiental, não aos artigos, alimentos e produtos que não valorizam a dignidade da vida humana e animal.

  4. Reutilizar: antes de pensarmos em reciclar, devemos passar pela etapa da reutilização. A maioria dos artigos que descartamos possuem uma segunda função. Isso vale tanto para artigos plásticos, metálicos ou vítreos, quanto para elementos orgânicos.

  5. Reciclar: esta é a etapa final de responsabilidade do consumidor sobre o produto que terá sua função original encerrada. Destinar corretamente os artigos para serem reciclados não apenas ajuda a manter o ciclo da Economia Circular em movimento, mas garante renda para diversas famílias que vivem em função da reciclagem.

Um modelo inspirado na natureza


A ideia de criar produtos respeitando ciclos de uso e reuso surge como algo muito arrojado e inovador, mas na verdade se trata de um modelo criado de acordo com as leis naturais.

Processo linear industrial e circular natural. Fonte: eCycle.

No ambiente natural não existem conceitos como desperdício ou descarte. Tudo o que a natureza cria serve depois de base para novas formas. O design natural é, por essência, perfeito, pois cada elemento natural, dos animais aos minerais, possui, em sua forma, a chave para a criação contínua de outras formas.


Um exemplo que pode ilustrar como a Economia Circular se inspira no ciclo natural é a liberação de sementes silvestres. Os pássaros, esquilos e demais animais que se alimentam de frutos são os consumidores. Os frutos, obviamente, são os produtos. Quando um animal expele as sementes em suas fezes ou enterra essas sementes em abrigos na terra, está encerrando o ciclo de uso de um produto abrindo espaço para uma nova forma, no caso a nova árvore que nascerá desta semente, garantindo mais frutos para outros animais.


Economia Circular no Brasil


Os modelos de produção e comercialização baseados na Economia Circular ainda são raros no Brasil. Poucas empresas realmente se dedicam a criar produtos garantindo sua correta destinação para reutilização ou reciclagem.


Os maiores incentivadores da Economia Circular no Brasil ainda são os pequenos artesãos, cooperativas de catadores, ONGs e defensores da equidade social e ecológica.


Para quem desejar saber mais sobre o panorama da Economia Circular no Brasil os sites Exchange 4 Change (http://e4cb.com.br/) e o Ideia Circular (https://www.ideiacircular.com/ ) são ótimas fontes de informação e exemplos de empresas e produtos pensados dentro desta filosofia.

 

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