• Nara Guichon

Comer e nutrir: alimentação para uma vida mais saudável e consciente

Atualizado: 28 de jan.


Alimentar-se é o primeiro ato que realizamos ao nascermos, após o respirar.


O universo da alimentação está presente em minha vida de maneira muito marcante desde que me entendo por gente. Me lembro que tive o privilégio de ser questionada frequentemente o que eu gostaria de comer. Acho isso um ato de extremo respeito com uma criança.


Pelo fato de sempre ter tido em minha casa comida de verdade, minhas referências culinárias são por consequência saudáveis e saborosas. Nhoque, sopas, arroz com ovo frito, purê de batatas, saladas – essas eram algumas de minhas escolhas preferidas. Doces não me interessavam.


Paralelo a isso, cresci numa casa com uma avó que cozinhava com esmero comidas de dar água na boca. Receitas que estavam em sua mente há anos, aprendidas em família. Não era raro termos nas prateleiras fartas latas com biscoitos, broas, pães caseiros e por aí vai.


Eu acompanhava essa "fazeção" debruçada na mesa onde massas eram espichadas, molhos preparados, pastéis recheados. Receitas que eram repetidas e aprimoradas incansavelmente com ingredientes comprados na feira que eu adorava ir semanalmente com minha avó e minha mãe. Experiências que me marcaram e que trago comigo até hoje.





Aprendi a cozinhar por observação e me atrevia a fazê-lo desde meus cinco anos de idade, sempre escondida dos adultos que, claro, me disseram não na primeira menção que fiz de cozinhar.


De furtivas práticas, cheguei a cozinhar na casa de uma vizinha que não gostava tanto do fogão e essa foi uma ótima oportunidade para praticar.


Quando cheguei na adolescência, me tornei vegetariana por compaixão aos animais. Ali as receitas memorizadas começaram a ganhar nova roupagem: farinha e arroz integral, açúcar mascavo, aveia, grãos diversos, nozes, castanhas... esses elementos substituíam com qualidade superior todos os alimentos industrializados.


Dali em diante, me interessei ainda mais pelo assunto saúde e qualidade alimentar. Parti em busca de mais e mais conhecimento e aprendi bastante sobre nutrição, combinação alimentar, produção agrícola etc. Essa formação individual também me trouxe desafios. Por exemplo: me descobri intolerante ao glúten e lactose. Essa reviravolta me proporcionou novas visões, descobertas e conhecimentos que ainda hoje me fascinam.


Uma mudança de mentalidade


Hoje a alimentação saudável ganhou relevância, com mais e mais pessoas abandonando a alimentação irresponsável em busca de uma mesa mais rica, saudável e livre de crueldade contra os animais. Mas ainda temos muito a aprender.


Ter uma alimentação saudável e sem carne é um gesto muito positivo, mas para comer bem é preciso pensar na mesa como um todo. Não consumir carne, mas consumir irresponsavelmente artigos como mel, frutas cheias de agrotóxicos ou produtos falsamente rotulados como naturais não muda muita coisa.


Posso garantir que comer bem é sempre mais simples, barato e equilibrado do que se pensa. Não é preciso seguir modismos, gastar fortunas com os chamados “superalimentos”, nem viver contando calorias.


A boa comida não tem marca nem vem em pacotes brilhantes. Comida de verdade é aquela que sabemos de onde veio, quem cultivou/preparou.


Mas, acima de tudo, uma boa alimentação começa com uma profunda mudança de mentalidade.


Sei perfeitamente que vivemos num país no qual grande parte da população sofre de severa insegurança alimentar e falar de alimentação consciente algumas vezes parece uma realidade impossível. Mas para os que têm o privilégio de poder escolher como se alimentar deviam fazê-lo com mais respeito.


O ditado de nossos antepassados nunca esteve tão certo: somos aquilo que comemos.



Comida de verdade tem cor, textura e procedência. Foto: Unsplash.


Simplificando a mesa


Gosto sempre de recomendar 5 passos para quem deseja comer com mais equilíbrio físico e ambiental: valorizar, diversificar, conhecer, conscientizar e dividir.


Valorizar


O primeiro passo para reduzir o desperdício de alimentos é aprender a valorizar tudo o que chega às nossas geladeiras e despensas.


Em minha casa busco sempre aproveitar tudo. O que não vai parar na panela volta para a terra. Cascas, sementes, talos e folhas não comestíveis convertem-se em adubo, seja para o seu jardim ou uma pequena horta (nesta matéria você pode aprender a fazer uma composteira caseira em passos simples).


Outros elementos como cascas de abacaxi, de banana, folhas de beterraba, cenoura ou talos de couve são ricas fontes de nutrientes capazes de render ótimos quitutes.


Diversificar


Comer bem é comer com variedade, sempre respeitando a sazonalidade dos produtos naturais.


Para diversificar o seu cardápio não é preciso gastar mais com alimentos vindos de outros lugares ou mesmo importados. Olhe ao redor, escute a tradição de sua região. O que os seus pais comiam na infância? Quais quitutes eram os preferidos de suas avós? Quais são as frutas da estação? (neste link você encontra uma lista das principais frutas e legumes de cada estação).


A culinária brasileira está repleta de frutas, legumes, grãos e hortaliças que não se encontram em nenhum outro canto do mundo. Cabe a nós valorizarmos toda essa riqueza alimentar.


Se não souber por onde começar, visite as feiras de sua cidade. Os produtores familiares de sua região certamente serão responsáveis por fornecer os alimentos que melhor se adaptam ao seu entorno.


Quando consumimos preferencialmente o que está perto de nós, mantemos o ciclo da economia local girando e reduzimos significantemente a emissão de gases poluentes emitidos para trazer, de lugares distantes, alimentos que muitas vezes não são ideais para a nossa rotina.



Diversidade e qualidade: eis a chave para a alimentação saudável e consciente. Foto: Unsplash.


Conhecer


Nossas avós sempre estiveram certas: o bom alimento sempre será aquele que faz parte de nossa cultura, o que esteve nas mesas de nossas famílias, que foi plantado, colhido e preparado com atenção e respeito.


Saber preparar seus alimentos é o primeiro passo para uma dieta livre de falsa comida. Comece pelos alimentos que melhor conhece, depois crie combinações de acordo com o seu gosto pessoal.


Tire um tempo para cozinhar, preparar os ingredientes, colocar a mesa e degustar sem pressa aquilo que a natureza nos oferece de modo tão generoso. Alimentar-se bem é uma alquimia, um tipo de fazer manual que nos enche de felicidade e satisfação.


Conscientizar


A cultura de consumo nos empurra diariamente uma série de alimentos que não são comida de verdade. Uma alimentação consciente depende também de respeito ambiental e consciência social.


Quando for preparar sua refeição pense: estou colaborando a economia local? O alimento que consumo promove o bem-estar de quem o produziu? Busque, sempre que possível, comprar do pequeno produtor. Além de consumir um alimento mais saudável, você estará mantendo a economia familiar ativa, gerando renda para quem vive no campo.


Dividir


E claro, sempre que possível, partilhe. Busque se informar sobre os inúmeros projetos combate a fome que existem pelo Brasil afora. Gente que dedica seu tempo e conhecimento para levar alimento aos que precisam.


O projeto Cozinha Solidária possui atualmente 26 unidades atendendo populações em situação de insegurança alimentar. Saiba como colaborar aqui.


O Mesa Brasil SESC é outro excelente projeto que mantém inúmeros bancos de alimento por todo o país. Participe aqui.


Se puder, monte a mesa, chame os amigos, passe essas ideias adiante. Faça da alimentação também um ato de respeito e comunhão.



 

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